Economia - Pandemia: que mudancas no mercado de trabalho vieram para ficar?-logo

Economia - Pandemia: que mudancas no mercado de trabalho vieram para ficar?

RFI

Entrevistas com economistas, analistas de mercado, investidores e políticos, para explicar e comentar questões econômicas internacionais. O papel do Brasil e dos países emergentes na economia mundial.

Location:

Brazil

Networks:

RFI

Description:

Entrevistas com economistas, analistas de mercado, investidores e políticos, para explicar e comentar questões econômicas internacionais. O papel do Brasil e dos países emergentes na economia mundial.

Language:

Portuguese


Episodes

Brasil busca reaproximação tardia com a África, cortejada por outras potências emergentes

2/14/2024
O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, realiza a partir desta quarta (14) a segunda visita à África em um intervalo de apenas seis meses, em busca de uma maior aproximação com o continente africano – uma cooperação que, apesar dos laços históricos que unem os dois lados, até hoje não decolou como poderia. As viagens ao Egito e à Etiópia têm foco mais político, mas também buscam ampliar parcerias comerciais com os dois novos membros do Brics e fomentar novas oportunidades com a União Africana. O Egito, segunda maior economia do continente, é o principal parceiro comercial do Brasil na região. Já na Etiópia, Lula foi convidado a participar da cúpula do bloco africano, do qual fazem parte 54 nações e cuja sede fica em Adis Abeba, capital etíope. O grupo acaba de entrar no G20, do qual o Brasil exerce a presidência este ano. Nos três dias em que estará no país, o presidente ainda terá uma série de reuniões bilaterais com outros líderes africanos – uma ocasião para promover novos acordos e parcerias. “Isso é estratégico para o nosso país e para a liderança que Lula quer exercer no chamado Sul global. O continente africano é uma frente de expansão que vem sendo disputada por várias forças internacionais que tem oferecido, de modo prospectivo, uma ampla possibilidade de expansão de mercado”, ressalta o professor da Unicamp Kauê Lopes dos Santos, que também é pesquisador visitante na London School of Economics, da Inglaterra. “O Brasil consolidou há décadas uma agenda internacional de cooperação Sul-Sul. Ao longo dos governos Lula 1 e 2, o país fez uma série de acordos, principalmente nas áreas de agricultura e medicina tropical”, relembra. ‘Entra e sai’ na África abalou credibilidade do país Mas desde então, essa interação andou devagar. Ao retornar ao poder para o terceiro mandato, o petista ressaltou que promoveria a 'volta' do país ao continente, num contexto em que outras potências emergentes – como China, Índia, Rússia e Turquia – ampliaram como nunca as parcerias comerciais e investimentos diretos nos países africanos, na última década. Os chineses se transformaram nos maiores fornecedores de uma gama variada de produtos à África, de matérias-primas a bens industriais, além de financiarem uma série de projetos de infraestrutura nos países africanos. Na comparação, as trocas com o Brasil são moderadas: apenas 3,8% das exportações brasileiras em 2022 foram para a região, ou US$ 12,8 bilhões. Esse índice se mantém praticamente estável desde o início dos anos 2010. Gustavo de Carvalho, pesquisador sênior em Governança Africana e Diplomacia no Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais (SAIIA) vive há mais de 15 anos no continente. Ele nota que, neste período, viu muitas promessas dos dirigentes brasileiros não se concretizarem. “Teve um problema de continuidade que não começou no governo Bolsonaro, uma continuidade de um interesse muito mais reduzido no continente africano nos anos 2010, desde o governo Dilma. E também teve uma questão de narrativas: nos anos 2000, o Brasil desenvolveu uma narrativa de cooperação Sul-Sul sofisticada, que atraiu muito interesse. Mas muitas vezes os efeitos práticos foram mais limitados”, explica Carvalho. “Esse entra e sai do Brasil, que parece uma montanha-russa nas relações entre o Brasil e a África, tira a credibilidade do país como um parceiro consistente. A mudança brusca, em relação aos anos 2000, e acentuada durante o governo Bolsonaro, não causou uma boa imagem do Brasil por aqui, neste sentido.” Oportunidades em um continente dinâmico Carvalho lembra que algumas das economias que mais crescem no mundo estão no continente, com seus 1,4 bilhões de habitantes. Além disso, a União Africana está em processo de implementação de uma zona de livre comércio entre os países-membros, que representa também novas oportunidades para parceiros externos como o Brasil, “Se nós olharmos o crescimento de comércio entre a África e o Brasil, tem aumentado, obviamente,...

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O luxo não conhece a crise - apesar das guerras, setor segue de vento em popa

1/31/2024
Não há pandemia, guerra ou crise econômica que faça o setor do luxo desacelerar – que o diga francês Bernard Arnault, CEO do grupo LVMH, dono de marcas como Louis Vuitton, Dior ou Tiffany. O bilionário voltou destronar o americano Elon Musk no posto de homem mais rico do mundo graças aos resultados do conglomerado francês em 2023, que levaram a bolsa de Paris a bater um recorde absoluto na sessão da última sexta-feira (26), a 7.634 pontos. A valorização do LVMH passou dos 12%, a maior capitalização já vista na França, após a empresa registrar alta de 9% das vendas e 8% dos lucros, “apesar do contexto perturbado” nos mercados internacionais, ressalta o comunicado do grupo. O único tropeço, a desaceleração da economia China no terceiro trimestre, não foi suficiente para o desempenho esfriar – algo que tem se repetido a cada nova crise que o resto do mundo enfrenta. A solidez do mercado chinês, que levou o luxo a crescimentos estratosférico nos anos 2010, trouxe incertezas em 2023. Mesmo assim, as vendas no país seguiram em alta de no mínimo 3% ao longo do ano. É como se o luxo, e a clientela que o sustenta, vivessem num mundo à parte. “O período de pós-pandemia foi de aumento das desigualdades, ou pelo menos de aumento da concentração de rende e de riquezas. Hoje temos dados mais concretos desse período que mostram que a renda no topo da pirâmide tem crescido consistentemente mais depressa do que na base”, aponta o economista Gedeão Locks, especialista em tributação e desigualdades e pesquisador do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica, em Berlim. “Como são essas as pessoas que compram esse tipo de produtos, é normal que seja um setor pouco afetado pelo que acontece de ruim em volta.” Resiliência às crises O setor é vasto – engloba desde vestuário e cosméticos até a saúde, passando por imobiliário, automotivo, turismo ou serviços. A grande vantagem do luxo é a sua capacidade se resiliência: a inflação, por exemplo, também atingiu o segmento e levou os produtos a ficarem ainda mais caros. Entretanto, a elite segue disposta a pagar o preço. "Os ricos têm conseguido se proteger da inflação, com mecanismos financeiros sofisticados, e a inflação foi o que corroeu o poder de compra da classe média e dos pobres. Como são os ultrarricos que podem comprar artigos de luxo, a demanda por esses bens permanece ou inclusive aumenta, já que há ainda mais gente nessa faixa de renda e de riqueza", salienta Locks. Mercado brasileiro do luxo Uma nota da consultoria Statista, publicada em 15 de janeiro, resume a conclusão: “o luxo não conhece a crise”, liderado pelas vendas nos Estados Unidos, China, Japão, França a Reino Unido, nesta ordem. O Brasil é um mercado ainda pouco significante, mas em expansão, principalmente na última década. O setor movimentou R$ 74 bilhões em 2022, conforme levantamento da Bain & Company, que projeta a cifra de R$ 133 bilhões até 2030. Mas essa alta não só não é acompanhada de desenvolvimento, como simboliza o aumento ainda maior das desigualdades no país, assinala o pesquisador. "Nas sociedades onde a desigualdade é mais acentuada é também onde floresce um desejo maior de ostentação e diferenciação baseada nesse tipo de símbolo, que constituem as grandes marcas de luxo. No Brasil, saiu um estudo do Ipea que mostra que o topo de 1% mais ricos dobrou a sua renda desde 2017: as pessoas com rendimentos mensais de em torno de R$ 400 mil dobraram a sua renda", observa. "Então, não me surpreende que o Brasil suba nesses rankings, mas isso não guarda nenhuma relação com o desenvolvimento econômico em si." Como essa riqueza poderia aumentar a contribuição para o avanço de um país? Uma parte dos ultrarricos, liderados por nomes como Bill Gates e Abigail Disney, faz campanha para que eles mesmos sejam submetidos a pagar mais impostos. No último Fórum Econômico Mundial, em Davos, o apelo voltou a ser feito por uma lista de 250 milionários – entre eles, apenas um brasileiro, o fundador do grupo de investimentos Gaia,...

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Vendas de champanhe francês sofrem com inflação e concorrência de outros espumantes

1/24/2024
A inflação alta não poupou as vendas de champanhe em 2023, inclusive dentro da própria França, país que produz e exporta a bebida para o resto do mundo. O balanço revelado pelo Comitê Interprofissional do Vinho de Champagne apontou uma queda de 8,2% das vendas no ano passado, impactadas também pelo aumento do consumo de outros tipos de espumantes, fabricados no país ou em vizinhos europeus. O espumante mais famoso do planeta, associado a momentos festivos e comemorações, ainda enfrenta os contratempos gerados pela pandemia de Covid-19. Em 2020, o lockdown levou as vendas a despencarem 18%, mas retomaram com uma força igualmente anormal nos dois anos seguintes, com alta de 25% em 2021 e o recorde de 326 milhões de garrafas vendidas em 2022. Após esses dois picos, o contexto inflacionário gerado pela guerra na Ucrânia levava o setor a já esperar um recuo na desempenho em 2023. O diagnóstico apontou para uma queda ainda maior que a projetada, conforme a nota divulgada pela principal entidade representante do setor. Foram 299 milhões de garrafas vendidas. “Depois de três anos anormais, o champanhe volta ao nível de vendas de antes da crise sanitária. O mercado nacional sofre mais do que os mercados de exportação com os efeitos da inflação, que pressionaram o orçamento das famílias durante todo o ano”, diz o comunicado. “A exportação de 172 milhões de garrafas ultrapassou o seu nível de 2019 (156 milhões de garrafas) e agora garante 57% do total de vendas, contra 45% há 10 anos.” Por que o champanhe é mais caro? O setor festeja, entretanto, que o faturamento tenha se mantido estável, acima de € 6 bilhões – um efeito do aumento do preço das garrafas, que passaram de uma média de € 20 a unidade para € 23. “O champanhe tem custos de produção que são bastante elevados. Tem vários fatores que explicam, inclusive o preço do hectare de terra em Champagne, que é muito cara: 1 hectare de vinhedos custa cerca de 1 milhão de euros, enquanto que no sul da França, em Languedoc, por exemplo, custa entre 20 e 30 mil euros”, explica a sommelière brasileira Ana Carolina Dani, que atua na França e integra a Associação de Sommeliers de Paris. “A colheita precisa ser obrigatoriamente manual, o que aumenta mais o custo. E neste contexto de alta dos preços, é um vinho que foi particularmente afetado: o processo de vinificação do champanhe é complexo e o uso de energia para resfriar as cubas de fermentação, por exemplo, é muito intenso – e a energia aumentou muito na França”, complementa. O preço ainda maior levou os consumidores mais atingidos pela inflação a experimentar alternativas ao champanhe, inclusive em momentos emblemáticos como o Natal. Assim, espumantes como o crémant de Alsácia ou da Borgonha, considerados os “primos pobres” do champanhe, ganharam um espaço de mercado francês. Prosecco ganha espaço Da mesma forma, o prosecco italiano – na esteira do sucesso do coquetel Spritz, que leva a bebida – e a cava espanhola também seduzem os consumidores, com seus preços no mínimo três vezes inferiores aos do champanhe. “A diferença é muito alta. Para uma família de classe média francesa, num contexto de alta geral de preços, foi preciso apertar os cintos e optar por produtos mais essenciais. O consumidor acabou indo procurar opções mais baratas”, salienta Dani. “A Itália conseguiu fazer um marketing mundial do prosecco graças ao Spritz e o hoje este espumante está muito mais presente na mesa dos franceses do que há um ou dois anos atrás. E os espumantes nacionais também têm ganhado muito espaço. Muita gente hoje prefere beber um bom espumante do que um champanhe ruim.” As vendas de crémant da Alsácia registravam alta de 4,2% no período de um ano encerrado em outubro – e apesar do aumento do preço das garrafas nas prateleiras de supermercados e adegas. Os dados de exportação do champanhe devem ser divulgados em março. Com pouco mais de 700 mil garrafas compradas em 2022, o Brasil não é um mercado importante para o setor, embora registre...

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Novo imposto mínimo mundial sobre lucros de multinacionais terá implementação progressiva até 2025

1/10/2024
Um novo e inédito mecanismo internacional contra os paraísos fiscais e a concorrência tributária entre os países entra em vigor neste mês de janeiro de 2024. Um “imposto mundial mínimo” de 15% sobre os lucros das multinacionais começa a ser cobrado pelos 140 signatários. Lúcia Müzell, da RFI O imposto representa um avanço ao acabar com a exoneração praticada nos paraísos fiscais e elevar o índice praticado em lugares como a Irlanda, destino preferencial das companhias digitais na Europa, ao aplicar apenas 12,5% em impostos. A taxa mínima será cobrada inclusive das empresas que não estão fisicamente implantadas no seu território, mas onde registram receitas. No alvo, estão as companhias que faturam mais de € 750 milhões – ou menos de 10 mil empresas no mundo. Esta foi uma maneira de aumentar a arrecadação das grandes companhias de tecnologia. Uma empresa alemã domiciliada nas Bahamas, onde é isenta de impostos, passa a pagar o mínimo de 15% nas operações realizadas na Alemanha, signatária do acordo. O texto foi costurado por mais de uma década pela OCDE e adotado no âmbito do BEPS (sigla em inglês para Erosão da Base Tributária e Transferência de Lucros), iniciativa conjunta com o G20, em outubro passado. “É um acordo definido pelos próprios países. Será um conjunto de regras nacionais, que têm os mesmos princípios de cálculos, e ele depende também da adoção das regras pelos demais países, ou seja, todos terão interesse em verificar se os outros estão fazendo conforme os modelos das regras. Essa colaboração é essencial para o projeto”, aponta Felicie Bonnet, chefe interina da divisão de fiscalidade internacional da organização, com sede em Paris. “Nós observaremos se a implementação vai acontecer como previsto e que a coordenação prevista entre eles, sobre as regras, funcionará na prática”, indica. EUA e China de fora Entre os signatários, estão União Europeia – incluindo Luxemburgo e também a Suíça, apontados como paraísos fiscais na Europa ao lado da Irlanda –, Reino Unido, Canadá, Japão, Austrália, Malásia e Coreia do Sul, de um total de 50 que já passaram a aplicar o texto no âmbito nacional. No entanto, as duas maiores economias do mundo, Estados Unidos e China, por enquanto estão de fora. “O acordo tem impacto mesmo se todos os países não o aplicam. Basta que uma massa crítica de países o faça e ele se torna efetivo, e hoje temos essa massa”, afirma o economista Pascal Saint-Amans, que acaba de deixar a direção do Centro de Política Fiscal da OCDE. “Os mecanismos do acordo são bem diabólicos, ao preverem que, até se países importantes como a China e os Estados Unidos não o adotam, as multinacionais deles serão submetidas ao imposto mínimo mundial. A única questão em jogo será quem vai arrecadar este imposto: se não for os americanos, poderão ser os europeus no lugar deles”, afirma. A expectativa da OCDE é que a medida leve à arrecadação de US$ 220 bilhões por ano em benefício dos Estados. A organização espera que a adoção do novo imposto ocorrerá progressivamente entre 2024 e 2025, com prazo mais lento principalmente nos países em desenvolvimento. “Os países em desenvolvimento têm interesse em colocá-lo em prática por diversas razões. Eles podem ter, por exemplo, índices de imposto que já são, em tese, superiores a 15%, mas que na prática são menores devido a isenções e benefícios fiscais oferecidos às multinacionais, de modo que elas não pagam impostos”, observa Bonnet. Brasil se prepara para implementar Em novembro, o Ministério da Fazenda do Brasil indicou que a Receita Federal estava “se organizando” para implementar o acordo. José Sarquis, embaixador da missão do Brasil junto à OCDE, explica que o país está na fase de “considerações” e vê o processo “de modo muito construtivo”. “Tradicionalmente, havia uma diferença de abordagem no direito tributário doméstico e no internacional, entre as práticas de países mais desenvolvidos e os em desenvolvimento. Com o tempo, essas práticas estão se aproximando e...

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Juros altos, inflação, guerras, Brics ampliado: o que marcou 2023 na economia

12/28/2023
O ano de 2023 chega ao fim com um princípio de luz de fim do túnel na sequência de alta dos juros que marcou o período e atrasou uma retomada econômica mais robusta, em meio à inflação que permaneceu elevada em boa parte do mundo. As incertezas geopolíticas, com o conflito na Ucrânia e a guerra em Gaza, não ajudaram a economia mundial a decolar. O coquetel de juros altos e crescimento baixo, somado à desaceleração da China, foi ainda mais perigoso para os países mais vulneráveis, em especial os africanos. “Nas economias avançadas, vemos que claramente as taxas vão ficar altas durante muito tempo, durante toda a primeira parte do ano 2024, e agora produzem impacto na atividade. Em geral, temos 12 meses de atraso entre o momento em que os bancos centrais sobem as taxas de juros e o momento em que realmente essas taxas afetam a atividade – e elas foram elevadas há pouco mais de um ano”, explicou à RFI Bruno de Moura Fernandes, chefe de macroeconomia da seguradora francesa Coface, presente em mais de 100 países. “Então vamos sentir mais, nos próximos trimestres, o impacto para as empresas, para as famílias”, disse, em entrevista realiza em agosto. A Unctad, Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, previu em abril que o ciclo de aumento de juros vai custar mais de US$ 800 bilhões em perda de renda nos países em desenvolvimento, nos próximos três anos. Além da depreciação cambial, as consequências imediatas nas economias mais vulneráveis – como Zâmbia, Chade, Sri Lanka ou Argentina – foram a explosão das dívidas, a dificuldade de acesso ao crédito e risco de crise monetária, podendo resultar em crise de dívida soberana. Na Ásia, a crise imobiliária chinesa, o crescimento baixo, de 5%, e o alto desemprego dos jovens na segunda maior economia mundial acenderam o alerta para uma piora da conjuntura. “Já vemos que claramente as exportações chinesas estão caindo pela pouca procura por parte dos Estados Unidos e da Europa, e que o consumo das famílias chinesas também é uma grande decepção, porque, afinal, não tem confiança. Por enquanto, não vemos como a recuperação pode acelerar nos próximos meses”, advertiu Fernandes. Esse contexto internacional abalou o mercado mundial de commodities e repercutiu imediatamente no Brasil. Cerca de 30% das exportações brasileiras, essencialmente de matérias-primas, vão para a gigante asiática. Governo sob pressão desde o primeiro dia No Brasil, o ano começou turbulento, com os ataques aos Três Poderes na posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já em 8 de janeiro. A crise política aberta logo na primeira semana do mandato aumentou ainda mais a pressão sobre a agenda econômica do presidente petista, em especial pelo ajuste fiscal, e na contramão da política econômica mais expansionista desejada pelo presidente. “A economia internacional vai desacelerar e, com isso, os preços das commodities não vão continuar altos como estavam. Essa situação reduz a margem de manobra para adotar políticas mais expansionistas”, previu Daniela Magalhães Prates, economista sênior da Unctad, em janeiro. “O embate com o mercado vai ser um problema. A incerteza política pode ser usada para isso: reduzir a margem na política fiscal e monetária”, antecipou. Com o país ainda marcado pela polarização no plano interno, o presidente não demorou para iniciar giros internacionais – a começar pela China. Apesar de ser a maior parceira comercial do Brasil, Pequim vinha sendo desprezada pelo governo de Jair Bolsonaro. "Por uma escolha de Estado, nós saímos da mesa. Essa escolha teve custos, e agora estamos voltando à mesa e isso é extremamente importante, na minha opinião”, disse o pesquisador associado do FGV-Ibre Livio Ribeiro, especializado em economias emergentes e em particular a chinesa. “Tradicionalmente na China, os ritos importam muito – até mais para os chineses do que para a gente. Assim sendo, a presença do presidente muda o nível da discussão e faz toda a diferença.” A viagem oficial de...

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Franceses planejam Natal mais econômico, com ceias menos sofisticadas e presentes de segunda-mão

12/20/2023
Por aqui, o peru de Natal e as tradicionais rabanadas não costumam fazer parte da ceia dos franceses, que preferem os frutos do mar e o típico foie gras, uma iguaria à base de fígado de pato ou ganso. Entretanto, neste ano de 2023, muitas famílias vão ter que adaptar a refeição tradicional para fazer com que ela caiba no orçamento, afetado pela inflação e pela queda no poder de compra. Com fatores geopolíticos afetando diretamente a economia, em recuperação lenta após a pandemia de Covid-19, a França deve fechar 2023 com uma inflação média de 5,8%, segundo o Banque de France (Banco Central da França), ultrapassando ligeiramente o índice de 2022, que ficou em 5,2%. Simone de Albuquerque, uma brasileira que mora na França há 33 anos, conta que o Natal desse ano vai ser entre familiares e amigos, reunindo irmãos, netos, vizinhos, mas que a ceia vai ter que ser mais comedida, já que os preços este ano estão muito altos. “Esse ano pretendemos fazer o mesmo que no ano passado, mas com preços mais em conta. Os lugares em que comprávamos antes, não vamos mais. Buscamos outros com produtos quase iguais, mas com preços bem mais próximos da realidade”, disse. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística e de Estudos Econômicos (Insee) entre 2021 e 2022, os preços dos bens e serviços aumentaram historicamente no país, mas em 2023 os índices estão em desaceleração. Ainda assim, segundo a instituição, os aumentos nos preços pesam duas vezes mais sobre os mais pobres do que sobre os mais ricos. A aposentada Françoise Gervez acredita que este Natal será de privações para muitas famílias. “Tudo aumentou muito e eu penso que para algumas famílias vai ser muito difícil. Não tanto em termos de brinquedos e presentes, porque há sempre coisas bonitas em lojas com preços mais moderados, onde os pais podem fazer escolhas mais razoáveis. Em contrapartida, em relação à comida, as pessoas vão ter mais dificuldade em conseguir uma qualidade igual aos anos anteriores”, destaca. Produtos para a ceia em promoção Nos meios de comunicação, não faltam por aqui reportagens para ajudar o consumidor a economizar na compra dos produtos para a ceia de Natal. A BFMTV, por exemplo, divulgou supermercados que estão promovendo grandes promoções como o famoso foie gras com € 5 de desconto, o segundo pacote de chocolate saindo pela metade do preço e 30% a menos no salmão defumado, destacando que essas “pechinchas” só costumam aparecem a partir do dia 26 de dezembro, mas que neste ano tomaram conta das gôndolas para dar uma forcinha para os orçamentos mais restritos. Françoise Gervez concorda, acrescentando que em alguns estabelecimentos ainda é possível encontrar preços que permanecem mais viáveis e com boa qualidade. “Por outro lado, os produtos de marcas mais tradicionais permanecem inacessíveis”, diz ela, que se organizou com dois meses de antecedência para não ter que abrir mão das tradições natalinas partilhadas em família. “Eu não mudo os meus hábitos, mas sei que muitas pessoas são obrigadas a mudar. É triste, há muita miséria”, lamenta. “Lembrancinhas” Um estudo da empresa de pesquisas Kantar aponta que os franceses pretendem gastar menos com os presentes de Natal deste ano: uma média de € 223 no total (quase R$ 1.200,00), 8% a menos do que no ano passado. Simone de Albuquerque explica que na família dela, só as crianças vão ganhar presente este ano. Para os adultos, será a tradicional “lembrancinha”. “Cada criança vai ganhar o seu presente, mas para nós adultos, não precisa tanto. Mas com certeza vai ter uma lembrancinha. Uma lembrancinha é obrigação”, brinca ela. Lojas cheias, sacolas nem tanto Na capital, com os preços altos, muitos franceses e visitantes não têm se deixado levar pelas belas decorações de Natal que tornam Paris ainda mais bonita nesta época do ano. As lojas estão cheias, mas as sacolas, nem tanto. Além disso, muitos estão aguardando as ofertas das grandes promoções de inverno, que começam em janeiro, para encontrar...

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Brasil aposta em recuperação de áreas degradadas para dobrar a produção do agro sem desmatar

11/29/2023
Não apenas de ambientalistas, diplomatas e governantes é feita a Conferência do Clima das Nações Unidas (COP28), que começa nesta quinta-feira (30) em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. O evento é um ponto de encontro de empresários e lobistas dos mais diversos setores da economia. Na delegação brasileira, o agronegócio comparece em peso para tentar dar uma nova imagem à produção agrícola do país – associada, nos últimos anos, ao desmatamento e à devastação do patrimônio natural. Esse impulso virá do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que deixou para anunciar na COP os detalhes de um plano recém lançado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária para recuperar áreas degradadas e improdutivas. Tratam-se de 40 milhões de hectares de terras utilizadas para pastagens, pela pecuária, e que possuem “alta aptidão para a agricultura” se fossem reabilitadas para o plantio. O objetivo se inscreve na promessa do governo de aumentar a produtividade brasileira sem derrubar mais florestas – principal calcanhar de Aquiles do Brasil na área ambiental. Conforme estimativas do ministério, o país tem cerca de 150 milhões de hectares de áreas degradadas que servem a pastagens – ou mais de duas vezes o território de um país como a França. A maior parte delas, cerca de 60%, ficam no Cerrado. “Não pode ter apenas uma cabeça de gado por hectare. Com tecnologia, assistência técnica, financiamento correto, poderá se ter três ou duas cabeças”, disse a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, ao depor a uma comissão no Senado nesta segunda-feira, antes de viajar a Dubai. “Não precisa nem ser um sistema intensivo, basta ser semi-intensivo e a gente dobra a produção sem precisar avançar sobre os ativos ambientais do nosso país”, argumentou. Contribuição do Brasil conta com recuperação de áreas degradadas No âmbito do Acordo de Paris sobre o Clima, o país se comprometeu a recuperar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas até 2030 – o que permite evitar mais desmatamento. A meta faz parte da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês) do Brasil, as ações que cada país apresenta para limitar as suas emissões de gases de efeito estufa, que provocam o aquecimento do planeta. O Plano Setorial para Adaptação à Mudança do Clima e Baixa Emissão de Carbono na Agropecuária 2020-2030, adotado em 2021, visa dobrar esse objetivo, chegando a 30 milhões de hectares. “Uma pastagem bem manejada, recuperada, com alto vigor produtivo, sequestra carbono, em vez de emitir. Então é uma grande oportunidade para toda a agenda climática do Brasil e tendo o setor agropecuário como um protagonista”, disse à RFI Leila Harfuch, economista especialista em sustentabilidade no agronegócio e sócia-gerente da Agrícone. Ela lembra que o Plano Safra já direciona recursos para práticas de menor impacto ambiental, via Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono). A demanda por linhas de crédito como o Renovagro, de R$ 7 bilhões, é crescente. “Isso pode ser revolucionário para o Brasil. É algo bastante interessante.” Investimento é alto Num prazo de 10 a 15 anos, o governo pretende investir US$ 120 bilhões (cerca de R$ 587 bilhões) no projeto e expandir a área agrícola brasileira de 65 para 105 milhões de hectares, sem desmatar. Linhas de financiamento do BNDES, do Fundo Soberano Brasileiro e do Banco do Brasil devem ser alocadas para os produtores interessados em comprar ou arrendar terras improdutivas e melhorar a gestão da produção, com insumos menos agressivos, técnicas mais sustentáveis de plantio e aumento da rastreabilidade da cadeia, uma exigência do mercado europeu. “É caro tanto recuperar quanto converter essas pastagens para a agricultura. É uma série de operações agrícolas que precisam acontecer para recuperar o vigor e a fertilidade do solo, e o processo de maturação é longo, de em média cinco anos para o investimento retornar para o produtor”, ressalta Harfuch. “E também tem uma questão de escala produtiva: uma coisa é o produtor...

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Rumo à eletrificação da economia, Europa acelera abertura de minas de lítio

11/15/2023
Num contexto em que quase metade do lítio mundial é produzido em minas australianas, um terço vem de lagos salgados do Chile e 15% tem origem chinesa, a Europa busca garantir a sua soberania no abastecimento do metal. Enquanto o mundo começa a discutir o fim da era do ouro negro – o petróleo –, agora é o ouro branco, como vem sendo apelidado o lítio, que atiça o apetite dos industriais. Leve, altamente condutor de eletricidade, a commodity é essencial para a fabricação de carros elétricos, em plena transição energética. Estima-se que Portugal tenha as maiores reservas europeias. A França também se posiciona nessa corrida: uma das maiores minas da Europa deve sair do solo na região de Allier, no centro do país. O geólogo Benjamin Barré, da mineradora francesa Imerys, recebeu a reportagem da RFI. “Estamos na fase da galeria piloto, que nos permitirá alimentar a usina piloto para terminarmos os nossos testes em escala semi-industrial”, explicou, à repórter Justine Fontaine. Por enquanto, a poucas centenas de metros do pequeno vilarejo de Echassières, o que se vê é uma grande cratera de onde se extrai caulim, uma rocha quebradiça usada para fabricar porcelana. Mas as obras para a extração do lítio sob a pedreira estão em andamento. O investimento previsto até 2028 é de mais de €1 bilhão, incluindo a extração, a trituração e o refino. “Na França, acho não houve abertura de uma mina nos últimos 50 anos. Faz muito tempo que não descobrimos uma reserva como esta que nós temos aqui. Podemos dizer que tivemos sorte de chegar a ela, que se encontra embaixo de um local já conhecido e que deve nos permitir, de acordo com o que sabemos até agora, produzir 34 mil toneladas de hidróxido de lítio por ano, durante pelo menos 25 anos”, complementa Vincent Gouley, diretor de Comunicação e Desenvolvimento Sustentável para projetos de lítio da Imerys. “Isto corresponde às necessidades de lítio de 700 mil veículos elétricos por ano, ou seja, metade da produção francesa atualmente. Ou seja, é um depósito significativo em nível francês e europeu”, diz ele. Explosão da demanda A Agência Internacional de Energia (AIE) avalia que a procura por lítio vai crescer 25 vezes até meados do século, estimulada por medidas como a proibição dos carros com motores térmicos na Europa, a partir de 2035. Mais de 30 usinas de fabricação de baterias elétricas estão sendo construídas no bloco e para atender à demanda por lítio, os projetos de minas existentes hoje já serão insuficientes para chegar até 2030, antecipa a agência. É por isso, para além das reservas, os países europeus também buscam se aperfeiçoar em toda a cadeia de produção. Em Lauterbourg, na fronteira franco-alemã, a start-up Viridian pretende realizar uma das etapas intermédias entre as minas e as fabricantes de baterias eléctricas – o refino. O projeto obteve €12 milhões em subsídios públicos, revela um dos seus cofundadores, Rémy Welschinge. “O processo começa com o produtor de lítio, que extrai o metal do solo ou da rocha, como vemos muito na Austrália, ou da salmoura, no caso chileno. Depois é preciso refinar. Alguns produtores fazem isso sozinhos, outros preferem enviá-lo para refinarias independentes, para processá-lo ou purificá-lo ainda mais”, aponta Welschinge. “É esse lítio que é fornecido aos fabricantes de eletrodos, para a construção das células de bateria que serão colocadas em veículos elétricos.” Em 2022, a Comissão Europeia lançou uma nova legislação sobre matérias-primas críticas para facilitar a busca pela soberania no metal e em outros minerais essenciais para a transição energética – baseada, em grande parte, na eletrificação da economia. De quebra, também visa a menor dependência do petróleo e gás da Rússia, no contexto da guerra contra a Ucrânia, e das baterias chinesas. Risco ambiental Nas fronteiras europeias, além de França e Portugal, Alemanha, Espanha e Finlândia também se mobilizam em busca de lítio, além do vizinho Reino Unido. Mas apesar do interesse econômico...

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Em meio à guerra, como ficam as relações comerciais do Brasil com o Oriente Médio?

11/8/2023
Com parcerias comerciais importantes no Oriente Médio, incluindo uma agenda em ascensão com Israel nos últimos anos, o Brasil tem feito malabarismos diplomáticos para que o conflito na Faixa de Gaza não abale os negócios com a região. A esquerda tem pressionado o governo Lula a ser mais enfático nas críticas a Tel Aviv, mas o agronegócio pressiona no sentido contrário. O Oriente Médio respondeu por 5,1% das exportações brasileiras em 2022, num total de US$ 17,2 bilhões, com balança comercial favorável a Brasília. “Sem a menor dúvida, as relações comerciais pesam muito e a geopolítica tem uma grande importância no comércio exterior brasileiro. Não dá para escolher um lado”, aponta Paulo Ferracioli, professor de políticas de comércio exterior e de economia no FGV Management. “A população desses países é grande: a do Irã são 88 milhões de habitantes. A da Arábia Saudita, que as pessoas pensam que é um grande vazio, tem quase 40 milhões de habitantes. A entrada desses dois países no Brics vai facilitar muito os negócios do Brasil na região”, salienta. Nos primeiros cinco meses deste ano, as vendas para os 22 membros da Liga Árabe subiram 11%, em relação ao mesmo período do ano anterior, conforme dados do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio). A pauta inclui majoritariamente produtos agrícolas. Parceria comercial inédita com Israel Durante os anos do governo de Jair Bolsonaro, próximo do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, as trocas com Israel atingiram níveis inéditos – o Brasil foi o principal fornecedor de petróleo do Estado hebreu, que foi também o sexto maior comprador da região de produtos agropecuários brasileiros. Sob a gestão Lula, essa dinâmica desacelerou, com queda de 68% das exportações. Mesmo assim, no fim de agosto – um mês antes da eclosão do conflito entre Israel e o grupo extremista Hamas –, os dois países formalizaram uma nova parceria comercial histórica. O Brasil se tornou o primeiro país a receber autorização para exportar carne de frango para Tel Aviv, sob os rigorosos padrões de produção kosher, as diretrizes alimentares que definem o que os judeus podem ou não consumir. Israel é um dos maiores consumidores de carne de frango do mundo, com 42 quilos por pessoa por ano, conforme dados do Ministério da Agricultura de Israel. Para o Brasil, este acordo representa uma oportunidade para dar um salto no setor, podendo superar, pela primeira vez, a marca de 5 milhões de toneladas de frango exportados para o resto do mundo, segundo projeções da Associação Brasileira de Proteína Animal. Antes da nova parceria, o Brasil já tinha vasta experiência na venda de alimentos com certificação halal, para os países muçulmanos. “Não é de forma alguma do interesse do Brasil se afastar de Israel, com o qual nós estamos fazendo bons negócios na área de agroindústria, mas há muito mais do que isso. A tecnologia de Israel interessa tanto ao Brasil quanto à Arábia Saudita. Todos os países querem investimentos de Israel em produtos altamente tecnológicos”, afirma Ferracioli. Preço do petróleo e impacto nos investimentos Para além da pauta de exportações, analistas têm apontado que o principal impacto da guerra na Faixa de Gaza tende a ser o aumento do preço do petróleo no mercado internacional – principalmente se o conflito se alastrar pela região. A entrada do Irã, apoiador do Hamas, poderia resultar no endurecimento das sanções a Teerã pelos Estados Unidos e seus aliados. “Se houver um aumento dos preços, os dos derivados de petróleo também subirão. O Brasil não vai quebrar por isso, mas vai sofrer uma alta de preços no mercado interno, que poderia impactar de forma bastante inconveniente a nossa inflação. Esse é um aspecto importante”, aponta o professor da FGV Management. “Eu não acredito que o Irã vá entrar no conflito, mas a incerteza é grande.” Desde o início da guerra, em 7 de outubro, o barril de Brent já acumula alta de 6%, a US$ 86. Na semana passada, o Banco Mundial alertou que, no...

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Por que, apesar de avanços, ricos e empresas continuam a sonegar bilhões de impostos pelo mundo

10/23/2023
Um trilhão de dólares, cerca da metade do PIB do Brasil, é o valor que multinacionais continuam a sonegar de impostos pelo mundo, graças a manobras fiscais que as permitem contornar as cobranças, como o registro dos lucros em paraísos fiscais. A informação é de um relatório inédito realizado por uma vasta equipe de pesquisadores da Paris School of Economics, sob o comando do economista Gabriel Zucman, discípulo de Thomas Piketty. O relatório Evasão Fiscal Global 2024, divulgado nesta segunda-feira (23) pelo Observatório Fiscal Europeu, faz um balanço dos avanços que foram promovidos no tema desde a crise financeira de 2008, mas aponta que o caminho rumo à transparência continua nebuloso – inclusive dentro da Europa. “A evasão das empresas representa, hoje, cerca de US$ 1 trilhão de lucros que são registrados nos paraísos fiscais, mas que aconteceram na verdade na França, na Alemanha ou nos Estados Unidos. E o mais interessante é que essa evasão em massa não se passa em Macau ou no Panamá, mas sim na própria Europa”, explicou Zucman à emissora France Inter. “São a Microsoft ou a Apple que registram dezenas de bilhões de dólares de lucros na Irlanda, mas que na realidade foram realizados na França”, apontou, ressaltando que uma menor arrecadação significa menos investimentos dos Estados em saúde, educação ou no combate às desigualdades. O montante também faz falta num momento em que os países ao redor do mundo buscam cobrir a explosão dos gastos dos Estados com a pandemia de coronavírus – e que levou muitos a se endividarem em patamares perigosos, como a própria França. Imposto mínimo de 15% ainda tem falhas O economista salienta que, desde 2017, a cooperação internacional entre os organismos fiscais deu um salto, sob o impulso de decisões do G20 e da OCDE. A maior transparência permitiu dividir por três as riquezas detidas em paraísos fiscais. Em 2021, 140 países concordaram com a aplicação de uma taxa mínima de 15% sobre os lucros no exterior, algo inédito. Entretanto, as grandes empresas e o bilionários continuam encontrando novas fórmulas para escapar dos impostos. “Infelizmente, desde 2021, uma série de desonerações a essa regra foram introduzidas. A mais importante e a mais problemática é uma chamada de ‘desoneração por substância’, que significa que quanto mais uma empresa está implantada num paraíso fiscal, mais ela poderá excluir lucros da cobrança da taxa mínima de 15%”, assinala Zucman à France Inter. “Ou seja, é um convite para enviar ao máximo a atividade para os paraísos fiscais como Irlanda, Suíça ou Holanda.” Embora o fim do sigilo bancário e os impostos mínimos sobre as sociedades tenham encerrado décadas de concorrência entre países por menores taxas de impostos, alguns ativos ainda escapam da cobrança, sinaliza o relatório. O documento afirma que a alíquota média paga pelos bilionários oscila apenas entre 0 e 0,5% da fortuna, graças às manobras fiscais que, quase sempre, utilizam empresas de fachada. 2% de imposto mundial para os 3 mil mais ricos “Não gosto de usar casos individuais, mas vou dar um exemplo só para explicar o fenômeno: o da família Arnault, que em 2023 ganhou € 3 bilhões em dividendos graças aos lucros da sociedade LVMH em 2022. Para um acionista normal, teria uma taxa de 30% que se aplicaria aos dividendos. Mas a família Arnault não pagou € 900 milhões em impostos”, afirma Zucman. “Pagou zero, ou quase isso, porque os dividendos são transferidos a holdings, que não são sujeitas ao imposto de renda de pessoas físicas.” O relatório Evasão Fiscal Global em 2024 propõe seis medidas para o combate ao problema, entre elas um imposto global de 2% sobre a fortuna dos bilionários. A cobrança recairia sobre menos de 3 mil pessoas no mundo, alegam os pesquisadores, e resultaria em US$ 250 bilhões a mais de arrecadação ao ano para os países. Se a proposta fosse estendida às multinacionais, o valor dobraria. “Para dar uma ideia das magnitudes envolvidas, estudos recentes estimam que os países...

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Apesar de avanços, ‘choque da maternidade’ ainda bloqueia espaço da mulher no mercado de trabalho

10/18/2023
Pela primeira vez, uma mulher ganhou sozinha um prêmio Nobel de Economia – um marco que, por si só, já reflete as barreiras para a ascensão profissional delas. A professora de Harvard Claudia Goldin foi recompensada pelos estudos sobre o espaço das mulheres no mercado de trabalho e a emancipação das americanas. A distinção reconhece os avanços promovidos nos últimos dois séculos, mas evidencia o quanto a igualdade de gêneros ainda é um objetivo distante, mesmo nos países mais desenvolvidos. “Elas se tornaram trabalhadoras, passaram a ter renda para elas e para as suas famílias. A vida delas mudou muito. Mas o mercado de trabalho e as políticas dos governos são, quase sempre, mais lentos para acompanhar isso”, disse Goldin ao ser entrevistada depois do anúncio do Nobel pela emissora Business Today. Nas suas pesquisas, apoiadas em documentos, estatísticas e dados empíricos, a economista retraçou a evolução da participação das mulheres no mercado de trabalho e concluiu que cada passo à frente ocorreu na sequência de algum grande evento histórico: guerras mundiais, surgimento dos anticoncepcionais ou, mais recentemente, a pandemia de Covid-19 e a expansão do trabalho remoto. A francesa Dominique Meurs, economista associada do Instituto Nacional de Estudos Demográficos (Ined) e professora da universidade Paris-Nanterre, celebra a vitória do Nobel, mas ressalta que já poderia ter ocorrido há muito tempo. “Faz mais ou menos 10 anos que eu digo que ela tinha que vencer esse prêmio Nobel. Então, ele chega meio tarde, eu acho, porque se trata não apenas de se interessar pelo mercado de mulheres, mas sim de ter uma outra visão do mercado de trabalho, com base em dados, apresentando hipóteses, pesquisando, e percebendo as grandes evoluções que foram acontecendo”, aponta, à RFI. “Hoje olhamos para o mercado de trabalho de uma maneira totalmente diferente. Ela mudou a nossa forma de trabalhar e olhar as coisas.” Mulheres demitidas ao casarem Claudia Goldin despertou para o assunto quando descobriu que, nos anos 1920, as mulheres eram sistematicamente demitidas nos Estados Unidos assim que se casavam – fruto de uma lei determinando a prática e que só perdeu força mais de 20 anos depois. “Foi no pós-guerra. As empresas precisavam também das mulheres casadas e não podiam mais se dar ao luxo de demitir assistentes, secretárias, só porque elas se casavam. Foi, então, pela pressão da demanda de trabalho nas empresas que as legislações mudaram”, afirma Meurs. De lá para cá, a participação das mulheres no mercado de trabalho só cresceu, mas apesar das aparências, elas continuam sem acesso à maioria dos cargos de liderança e ganham, em média, 14% a menos do que os homens em um posto equivalente, nos países da OCDE – ou seja, nas economias mais desenvolvidas do planeta. Nos últimos 10 anos, essa diferença praticamente não caiu, baixando apenas 2%. “Nos países da OCDE, infelizmente, a explicação ainda é bem simples: é o choque das maternidades que leva a uma ruptura na carreira. Para explicar a diferença de salários entre homens e mulheres, não temos mais a diferença de educação, de experiência e nem de profissão, embora este ainda seja um aspecto a se considerar. É a chegada da maternidade e as consequências no ritmo de vida, e o fato de que as normas sociais impõem que as responsabilidades ainda sejam compartilhadas de forma desigual”, frisa a francesa. Os mais disponíveis são os maios recompensados: os homens Claudia Goldin estudou particularmente os bloqueios para o reconhecimento das mulheres no mercado altamente qualificado, em que a competição com os pares masculinos se mostra mais cruel, sobretudo se elas têm filhos. São cargos que implicam maior disponibilidade para receber clientes, por exemplo, o que significa jornadas de trabalho mais longas. As empresas tendem a recompensar os funcionários mais disponíveis, que costumam ser os homens. Dominique Meurs frisa que a pandemia de Covid também marcou um freio na carreira de muitas...

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Como a TV tradicional tem conseguido enfrentar o avanço do streaming

10/11/2023
A disseminação dos serviços de streaming e as mudanças nos hábitos de consumo dos usuários na última década levam a audiência da televisão tradicional a cair a cada ano, no Brasil, nos Estados Unidos ou na Europa. E quando grandes atores do mercado se reposicionam para se adaptar a essa revolução digital, a questão fundamental volta a emergir: a televisão linear está fadada a desaparecer? No cenário internacional, a última a mexer as peças no tabuleiro foi a Disney, que passa por um grande processo de reformulações desde que anunciou a intenção de ceder canais de peso como a emissora da TV aberta ABC e os canais a cabo National Geographic e FX. O grupo investiu pesado no streaming, em especial a Disney +, apostando na tendência antecipada por muitos analistas especializados. “Tem Disney+, Star+, a ESPN, o Hulu, que eles acabaram de adquirir o controle. O caso da Disney é bem particular: é muito agressivo o investimento que ela faz no streaming e, pelo que temos de informação, esse investimento ainda não teve o retorno esperado – até porque o mercado de streaming não está crescendo na velocidade que alguns analistas previam. Em cima dessas previsões irreais, muitos investimentos foram feitos e eles precisam tirar o dinheiro de algum lugar para cobrir o buraco”, explica Fernando Morgado, professor de cibercultura e inteligência de mercado na ESPM-Rio. Ele é um dos que acreditam que, apesar das profundas transformações por que passa o setor de mídia audiovisual, a televisão convencional ainda terá o seu lugar na casa dos telespectadores – mas não da mesma maneira que a consolidou. TV mais ao vivo Antes, uma parte importante do conteúdo era gravado ou vinha pronto do exterior – os famosos ‘enlatados’. Agora, as plataformas souberam ocupar esse espaço e sobrou para as televisões investirem nos programas ao vivo e locais, além dos de ‘infotainment’, programas que aliam entretenimento com informação. “Não vejo esse fim tão cedo. Eu vejo uma complementaridade e parto da ideia da adaptação que os negócios são obrigados a fazer”, avalia. “A TV convencional, como a gente conhecia até uns anos atrás, essa morreu. No lugar dela, surgiu uma nova: mais ao vivo, mais jornalística, e também com mais eventos. Os torneios de futebol estão com os direitos de transmissão nas alturas, com valores que nunca foram alcançados antes – e isso também ajuda a manter um modelo de televisão baseado em horários”, observa. Neste aspecto, o especialista observa que a programação ao vivo oferecida pelas emissoras encontra eco no fenômeno da segunda tela: ao mesmo tempo em que o telespectador assiste a um programa, usa o celular para comentar e repercutir com outros no mesmo momento, pelas redes sociais. “Isso tem ocupado espaço no mundo inteiro e é realmente um refúgio para os canais lineares, porque o ao vivo dá o senso de urgência, dá a emoção. Existem inclusive estudos que mostram que quando tem um programa de TV com o selo ao vivo, a audiência cresce, em comparação com conteúdo gravado”, salienta. YouTube: concorrente ou aliado? Quanto às redes sociais, não necessariamente elas devem ser vistas como concorrentes, mas sim como aliadas, ressalta Morgado. Emissoras com recursos mais limitados tem usado a plataforma YouTube para continuar a se desenvolver. No Brasil, o SBT se tornou um caso de sucesso mundial de migração dos telespectadores da telinha para a plataforma, sem necessidade de investimentos colossais em tecnologia, como fez a Globo com o Globoplay. Dados da Kantar Ibope Media, que tem feito a aferição da audiência de streaming, apontam que o YouTube já representa 15% da audiência de TV no Brasil. “Não precisa pagar e eu diria que é a nova TV aberta, dada a popularidade do conteúdo, a variedade, só que turbinada pela participação do usuário – em que ele também gera conteúdo e não depende apenas de quatro ou cinco redes de TV mais fortes”, complementa Morgado. Segundo um relatório da consultoria especializada americana Nielsen, a...

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Reindustrialização da França vai precisar de mão de obra estrangeira, adverte governo Macron

10/4/2023
No momento em que a União Europeia acerta os ponteiros para reformar a política migratória no bloco, o governo francês também prepara uma nova lei de imigração, que poderá responder à demanda de setores da economia que sofrem com a falta de mão de obra no país. Ministros do presidente Emmanuel Macron têm reiterado que a reindustrialização da França, um objetivo da presidência, vai precisar passar por uma maior regularização de trabalhadores estrangeiros – pelo menos nas áreas sob forte tensão. Em setembro, o ministro da Indústria, Roland Lescure, evocou que só na sua pasta, o país vai precisar de 1,3 milhão de pessoas nos próximos 10 anos e a França será obrigada a fazer uma “seleção econômica” da imigração que recebe, conforme as necessidades no mercado de trabalho. “Um monde de indústrias só funcionam graças à mão de obra estrangeira”, frisou. Depois, foi a vez da ministra da Solidariedade e da Família, Aurore Bergé, afirmar que a aprovação do projeto de lei é uma questão de “pragmatismo, de realismo e de maior eficiência” da economia francesa. “Estamos falando de empregos na metalurgia, por exemplo, justamente uma área que sofreu com a desindustrialização, mas que continua a ter que empregar e tem muita dificuldade para recrutar”, aponta o chefe da Divisão das Migrações Internacionais da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), Jean-Christophe Dumont, à RFI. “Os trabalhadores locais veem esses empregos como tendo pouco futuro. Nesses setores, encontramos, proporcionalmente, um número alto de operários imigrantes.” Setores com vagas abertas Desde a retomada após o choque da Covid-19, áreas como hotelaria, turismo, transportes, construção, segurança e agricultura estão igualmente sob tensão. Vagas mais qualificadas, como às ligadas à saúde e à tecnologia, também penam a ser preenchidas. Dumont observa que uma das principais barreiras para a abertura dos postos para os estrangeiros é o temor da burocracia, a começar pelo desconhecimento da legislação trabalhista para os imigrantes e as equivalências educacionais entre os países. As empresas temem, ainda, serem responsabilizadas por eventuais ilegalidades no processo de contratação de um trabalhador estrangeiro. “Quando eles têm a escolha, obviamente eles vão dar preferência aos franceses. Mas quando há situações de penúria, eles percebem que há recursos humanos com alto valor agregado a quem eles podem recorrer”, salienta o especialista da OCDE. “Só que está cheio de profissionais cujos diplomas ainda não são reconhecidos, em especial para profissões muito regulamentadas na França. O país está mal colocado para facilitar a equivalência de diplomas ou propor uma formação complementar, quando a equivalência não é perfeita”, constata. Segundo a associação Each One, especializada na inclusão profissional de refugiados e imigrantes, 62% das pequenas e médias empresas francesas estão com dificuldades para empregar, mas só um terço demonstra abertura para os estrangeiros. “A questão é conseguirmos levantar o freio, os estereótipos, e acompanhar as empresas para que elas passem a ver pessoas que poderão recrutar não como imigrantes, mas como talentos que elas precisarão observar em alguns aspectos específicos, como talvez a língua. Precisamos reforçar a visão de que isso é, acima de tudo, um investimento positivo para a empresa – e essa convicção deve ser espalhada por cada andar da empresa”, explica Théo Scubla, fundador da Each One. Curso na França Para facilitar esse caminho, o primeiro passo para o imigrante deve ser se qualificar nos moldes franceses, sugere Scubla. “Primeiro, no que chamamos de savoir être, para eles adquirirem os códigos da vida na França e reforçarem o conhecimento do idioma. Depois, direcionamos para as profissões desejadas, que podem ser pouco ou muito qualificadas, conforme a necessidade das empresas”, sinaliza. “Para cada curso, já estamos em contato com uma empresa que está potencialmente interessada, o que nos...

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Ameaça de ‘contágio’ da greve nas montadoras americanas preocupa fabricantes na França

9/20/2023
As montadoras europeias acompanham de perto o desenrolar da maior greve em décadas no setor automobilístico americano. Iniciado na sexta-feira (15) nos Estados Unidos, o movimento por reajustes salariais e melhoria dos benefícios promete ser duradouro e encontra eco em reivindicações de trabalhadores do setor na Europa, igualmente atingida por um contexto inflacionário que achatou o poder de compra. O pleno emprego nos Estados Unidos favorece os trabalhadores na queda de braço com as Big Three – as fabricantes Ford, General Motors e Stellantis. “O mercado de trabalho americano ainda está sob tensão e, histórica e economicamente, esses são os melhores momentos para negociar aumentos de salários. "Os sindicatos têm nas mãos a capacidade de pressionar o sistema agora”, aponta Jeremy Guez, professor associado de Economia e Negócios Internacionais da renomada escola de administração HEC Paris, em entrevista à RFI. As Big Three empregam 12,7 mil pessoas no país e são responsáveis por 3% do PIB americano, segundo a associação AAPC (American Automotive Policy Council). Assim, em 10 dias, a greve tem o potencial de causar um prejuízo de US$ 5 bilhões à economia dos Estados Unidos. Donna Kesselman, especialista em sindicalismo nos Estados Unidos e professora da Universidade Paris-Est Créteil, aposta que o movimento vai durar bem mais do que isso. “As montadoras têm um estoque de, em média, 37 dias. Ou seja, uma greve de menos de 37 dias não teria muito impacto. Então quando os trabalhadores americanos decidem entrar em greve, eles precisam estar determinados a aguentar firme”, diz. “A GM e a Ford têm estoques de 50 a 60 dias, e a antiga Chrysler tem estoque de 70 dias. Se eles começaram, foi para durar, e foi por isso que eles visaram certas fábricas estratégicas, em que eles conseguem bloquear a produção.” Enquanto os empregados de outros setores industriais, como da aviação ou maquinário agrícola, já obtiveram aumentos para compensar a alta da inflação anual de mais de 3% acumulados, os do automotivo não tiveram sucesso nas negociações salariais que duraram dois meses. O último reajuste foi há quatro anos, de 6%, alega Shaw Fain, presidente do poderoso UAW (sigla para United Auto Workers, o maior sindicato da categoria). Os lucros líquidos de US$ 20,25 bilhões das três maiores indústrias de automóveis do país, apenas no primeiro semestre do ano, foram a gota d’água para o início do movimento. “Concretamente, um prejuízo de US$ 5 bilhões pode causar muitos danos à economia americana”, ressalta Guez. “Essa greve simbolicamente representa a rixa entre os trabalhadores e os executivos, entre os mais privilegiados nos Estados Unidos e os que ficaram para trás, entre aqueles que se deram bem nas últimas décadas de crescimento econômico e aqueles que afirmam que, apesar do crescimento, não conseguiram se beneficiar.” Eco na Europa No exterior, a questão é saber se o que acontece nas fábricas dos Estados Unidos poderá se reverberar para outros países nos quais a conjuntura econômica é semelhante. A Stellantis, fruto da fusão entre a americana Chrysler e a francesa PSA, da Peugeot-Citröen, é a mais diretamente impactada pela possibilidade de ‘contágio’ da greve nas plantas instaladas na Europa. Os principais sindicatos de trabalhadores franceses já haviam marcado a retomada das mobilizações sociais, no dia 13 de outubro, com foco na perda do poder aquisitivo. Outro aspecto que aproxima os dois contextos é a insegurança dos trabalhadores diante da transição para os veículos elétricos. Nos Estados Unidos ou na Europa, os sindicatos temem que a saída dos combustíveis fósseis enxugue os salários e as vagas. O economista Rafael Cagnin, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, no Brasil, nota que os processos de "destruição criativa" nos meios produtivos costumam ser acompanhados por tensões sociais. "Não necessariamente as pessoas que perdem o emprego nesse processo vão obter emprego em outro. Existem diferenças...

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Alta da pobreza na França leva associações de caridade ao limite de suas capacidades

9/13/2023
As filas cada vez maiores de pessoas à espera de um prato de comida diante de associações de caridade refletem um problema que se transformou em uma bola de neve na França: o aumento da pobreza. Um número crescente de franceses que viviam no limite do orçamento agora depende de instituições como os bancos alimentares para conseguir fazer três refeições ao dia, todos os dias. O resultado é que os organismos de assistência também se encontram em uma situação preocupante: a inflação fez disparar os custos dos alimentos e das operações, devido à alta dos preços dos combustíveis e da luz. “As crises sucessivas que tivemos – a Covid, a guerra na Ucrânia, a inflação – impactaram o orçamento das famílias e levaram pessoas que não estavam numa situação de precariedade alimentar, ou que estavam no limite do orçamento delas, a entrarem na precariedade”, explica Laurence Champier, diretora da Federação Francesa dos Bancos Alimentares. “A inflação não explica tudo, mas foi um acelerador. Para se ter uma ideia, no âmbito da nossa associação, quando o preço da energia subiu, chegamos a um aumento de € 16 milhões a mais nos nossos gastos.” Uma das associações mais emblemáticas da França, a Restos du Coeur anunciou que teria de deixar de atender a cerca de 150 mil pessoas até o início de 2024 – depois de, só no primeiro semestre, registrar 200 mil beneficiados a mais do que o previsto. O caso da Restos du Coeur está longe de ser uma exceção. “Os problemas que temos visto não são casos isolados: os bancos alimentares estão todos com dificuldades de abastecimento e, do outro lado, o aumento da precariedade alimentar na França se tornou regular, desde 2008. Eram 780 mil pessoas assistidas naquele ano e hoje temos 2,4 milhões que dependem de nós”, complementa Champier. Plano contra a pobreza Na semana que vem, o governo francês vai lançar um plano de combate à pobreza – que atinge 9,2 milhões de pessoas na França, ou 15% da população. Uma pesquisa da associação Secours Populaire com o instituto Ipsos verificou que 53% dos franceses não conseguem mais economizar e 18% – uma alta de 3% em relação a 2022 – se acostumaram a viver com a conta bancária no vermelho. As filas por um prato de comida são preenchidas cada vez mais por pessoas que têm um trabalho fixo, algo inédito, mas também mães solteiras, aposentados e estudantes universitários. No centro social Maison Blanche, no norte de Paris, a reportagem da RFI encontrou o brasileiro Rafael, que chegou na França há um ano e se surpreendeu com o que viu. “Você não imagina que encontraria uma fila de 300 estudantes em pleno mês de agosto [no auge das férias de verão], esperando uma refeição na França. É um país rico, mas estou vendo que a situação está complicada”, disse o jovem. “A gente vê que está difícil para todo mundo.” Compras limitadas e queda nas doações Uma prova é que o número de doações no país estagnou no ano passado – algo que não acontecia havia 10 anos. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos (Insee), o preço dos alimentos subiu 11% em agosto, na comparação com o mesmo período do ano passado. Assim, a alimentação, o segundo maior gasto das famílias, se transformou em uma variável de ajuste do orçamento, aponta Champier. “As pessoas compram menos, preferem produtos mais baratos, restringem as compras a partir de um certo momento do mês – por exemplo, não compram mais produtos de higiene porque o dinheiro acabou aquele mês”, salienta. “Muitas simplesmente não compram mais nada que não seja de alimentação.”

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Por que o yuan ainda está longe de desbancar o dólar no mercado internacional

9/6/2023
O ano de 2023 se transformou em um marco para a internacionalização do yuan, a moeda da China. O mundo caminha para um dia o dólar ser substituído nas transações globais pelo renminbi, o nome oficial da divisa chinesa? Desde que se tornou uma potência econômica, a China alimenta esse sonho, ainda mais depois de o yuan ser reconhecido como uma das moedas do FMI (Fundo Monetário Internacional). Esse anseio é agora reforçado pelo contexto da guerra na Ucrânia e a ampliação do Brics, o grupo de países emergentes do qual faz parte junto com Brasil, Rússia, Índia e África do Sul. Avesso às sanções ocidentais contra Moscou, de quem é aliado, Pequim passou a comprar petróleo e gás russos diretamente em renminbis e acelerou o desenvolvimento do próprio sistema de pagamentos transfronteiriços, o CIPS, um equivalente chinês ao tradicional Swift. A ofensiva responde à importância da China como principal parceira comercial de cerca de 140 países espalhados pelo mundo. Dos restantes, ela é a segunda principal parceira. Neste contexto, os acordos bilaterais com Bancos Centrais estrangeiros, incluindo o do Brasil, se multiplicam. “Isso foi colocado pelo governo brasileiro como uma espécie de conquista, mas em realidade se trata se uma política externa chinesa. Ela foi desenhada e está sendo promovida pela China, mas vai depender muito dos próprios atores das relações comerciais, se vão querer utilizar ou não o yuan, e dentro de uma certa cota”, sublinha o coordenador do Grupo de Estudos Brasil-China da FGV Direito Rio, Evandro Menezes. “No geral, os players do Brasil ainda preferem operar em dólar.” Economia fechada dificulta expansão Na última cúpula do Brics, em que a abertura para seis novos membros foi decidida, os integrantes avançaram as negociações sobre o uso de uma moeda comum entre eles. Para o novo eixo do Sul global, estimular alternativas ao dólar representa fortalecer a própria influência geopolítica. Mas dado o peso da China na relação com os demais, o yuan tem tudo para ser o maior beneficiado. Ironicamente, o freio para uma expansão generalizada do renminbi no mercado internacional vem da própria China. Por conta do forte controle estatal sobre o sistema financeiro do país e a moeda nacional, o yuan ainda é apenas parcialmente conversível em outras moedas correntes, ao contrário do dólar ou do euro. No século 19, foi justamente a liberalização financeira que permitiu à libra britânica e, no século seguinte, ao dólar americano, se transformarem em moedas mundiais. “Há diversos elementos a serem considerados antes de se falar em uma superação da predominância do dólar no âmbito internacional, inclusive a confiança da moeda, a estabilidade da economia, as políticas cambiais e monetárias adotadas pelo país, a sua pujança econômica”, destaca Menezes. Alternativa para países endividados É por isso que, enquanto não está disposto a pagar o preço da abertura, Pequim tem privilegiado à expansão do yuan via transações comerciais, empréstimos e operações como swap cambial, que beneficiou recentemente a Argentina. Com aceso limitado a dólares, Buenos Aires depositou pesos argentinos no Banco Central chinês e recebeu o equivalente em yuans. Com o dinheiro, quitou uma parcela da dívida bilionária que mantém com o FMI – mas sem usar as suas reservas na moeda americana, que se encontram em baixa. Já Pequim avançou um passo a mais nos seus planos de expansão. “Tem uma série de variáveis importantes, não só o comércio internacional, que poderá dar ao yuan uma importância pelo menos equiparável ao dólar. Os Estados Unidos estão tentando proteger o dólar de diversas maneiras, afinal esse é um ponto importante de manutenção do seu poder e da sua hegemonia econômica global”, observa o professor da FGV, atualmente pesquisador visitante da Universidade de Pequim. “Os obstáculos postos pelos americanos e pela Europa criam uma dificuldade evidente para o yuan se tornar uma moeda global. E há sempre um teste de força importante: em momentos...

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Incertezas sobre a China prorrogam fase ‘devagar’ da economia mundial

8/30/2023
Desde o começo do ano, os indicadores da economia mundial não param de decepcionar e, agora, o que pode ser uma ‘bomba-relógio’ – como definiu o presidente americano, Joe Biden, sobre a economia chinesa – aumenta o grau de preocupação sobre os meses que estão por vir. O coquetel de juros altos e crescimento baixo no mundo, somado à desaceleração da China, se torna ainda mais perigoso para os países mais vulneráveis, como os emergentes. A sequência de alta de juros nos Estados Unidos não dá sinais de arrefecer para conter a inflação, com efeito dominó no resto do planeta. Da mesma forma, os riscos ligados às tensões geopolíticas, com a guerra na Ucrânia, também não recuam. “Nas economias avançadas, vemos que claramente as taxas continuam a subir e vão ficar altas durante muito tempo, durante toda a primeira parte do ano 2024, e agora produzem impacto na atividade. Em geral, temos 12 meses de atraso entre o momento em que os bancos centrais sobem os índices e o momento em que realmente essas taxas afetam a atividade – e elas foram elevadas há pouco mais de um ano”, explica Bruno de Moura Fernandes, head de macroeconomia da seguradora francesa Coface, presente em mais de 100 países. “Então vamos sentir mais, nos próximos trimestres, o impacto para as empresas, para as famílias. Estamos a ver uma desaceleração do consumo das famílias, um investimento menor e claramente um aumento das insolvências em todas as regiões”, ressalta o analista. Falências na Alemanha Na Europa, a série de falências na Alemanha se iniciou no ano passado e se acentua: o número de fechamentos de empresas em julho foi quase 24% superior ao mesmo período de 2022, segundo dados oficiais. Berlim registrou crescimento zero no segundo trimestre do ano. O caso alemão, a maior economia do continente, simboliza o ritmo devagar em quase toda a zona do euro, como indicam os números da produção industrial, de somente 0,5% em junho. O setor de serviços, também em queda, é outro sintoma de uma recessão que parece se aprofundar. Na Ásia, a crise imobiliária chinesa, o crescimento baixo – de talvez 5%, como prevê Pequim este ano – e o alto desemprego dos jovens na segunda maior economia mundial acendem o alerta para uma piora da conjuntura. O temor de que o ‘momento Lehman Brother’ chinês possa estar se aproximando gera apreensão nos mercados financeiros, depois que um grande fundo de investimentos do país, Zhongrong Trust, não honrou seus pagamentos em meados de agosto. “Já vemos que claramente as exportações chinesas estão caindo pela pouca procura por parte dos Estados Unidos e da Europa, e que o consumo das famílias chinesas também é uma grande decepção, porque, afinal, não tem confiança. Os níveis de confiança das empresas e sobretudo das famílias estão muito baixos: a dívida das famílias subiu demais durante a pandemia e por isso, elas não estão a consumir o que deveriam”, contextualiza Fernandes. “Por enquanto, não vemos como a recuperação pode acelerar nos próximos meses. E isso, obviamente, significa menor procura por muitos produtos.” Risco para o Brasil Esse contexto internacional abala o mercado mundial de commodities e repercute imediatamente no Brasil. As flutuações nos preços do petróleo e do minério refletiram essas incertezas. “No Brasil, as taxas de juros continuam muito altas e isso impacta, obviamente, a demanda interna, o consumo das famílias, o investimento. E se o Brasil não tem esse motor que são as exportações, ou se as exportações não são dinâmicas pela fraca demanda chinesa, isso obviamente vai impactar a economia brasileira”, ressalta o especialista franco-português. Cerca de 30% das exportações brasileiras, essencialmente de matérias-primas, vão para a gigante asiática. Na última cúpula do Brics, na África do Sul, o ministro da Fazenda do Brasil, Fernando Haddad, comentou o assunto. “Nós estamos acompanhando o que acontece nos três blocos, China, Europa e Estados Unidos, que são grandes parceiros comerciais do Brasil. Mas o...

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Primeiro passo de projeto de moeda única do Brics deve ser com transações nas moedas nacionais

8/23/2023
Um dos focos da agenda econômica da 15ª Cúpula do Brics, na África do Sul, é o avanço das discussões sobre a adoção de uma eventual moeda única nas transações entre os países integrantes do bloco de emergentes. Um primeiro passo deve ser a ampliação dos fluxos nas moedas nacionais entre os países-membros, com um papel protagonista do chamado Banco do Brics nesta transição. Lúcia Muzell, enviada especial da RFI a Joanesburgo Assim, em um primeiro momento, em vez de usar o dólar para a China investir no Brasil, os dois países poderiam escolher o yuan chinês – que, entre as cinco moedas do bloco, é a mais internacionalizada. O exemplo foi evocado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista nesta terça-feira (22). Desde que assumiu o Planalto, ele tem reiterado o desejo de concretizar o projeto, um sonho antigo dos países em desenvolvimento que ganhou força desde que os juros americanos se estabilizaram em um patamar elevado. “Por que eu faço negócio com a China e preciso de dólar? O Brasil e a China têm tamanho suficiente para fazer negócios nas suas moedas ou em outra unidade de conta, sem desvalorizar a moeda da gente e sem negar. Ela continua existindo, mas a gente cria uma moeda de comércio exterior”, explicou. “O que é importante é que a gente não pode depender de um único país que tem o dólar, e nós somos obrigados a ficar vivendo da flutuação desta moeda. Não é correto.” O presidente ressaltou que o plano não representa “negar o dólar”, mas frisou que os países em desenvolvimento podem desviar da moeda americana para poderem, inclusive, se ajudarem entre si nos momentos de crise. “Há países, como a Argentina, que não podem comprar dólar agora, e estão em uma situação muito difícil, porque não têm dólar. Ora, para vender para o Brasil, não deveria precisar de dólar”, evocou. Passo a passo O presidente do Instituto do Brasil África, João Bosco Monte, acompanha em Joanesburgo o andamento das negociações de um projeto “complicado”, segundo ele, para sair do papel. “Os países têm, naturalmente, a capacidade de transações bilaterais entre si nas suas moedas, e isso talvez seja a gênesis de um novo captulo. A identificação de uma moeda comum é, por enquanto, um desejo que eles têm colocado sobre a mesa”, avalia. Diante de uma plateia de empresários, industriais e integrantes do sistema financeiro, no Fórum Empresarial do Brics, Lula e o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, enfatizaram o papel do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, na sigla em inglês) para acelerar o projeto com as moedas nacionais. O brasileiro sonha que o NDB um dia será “mais forte que o FMI” nos empréstimos para as nações em desenvolvimento. Já o presidente russo, Vladimir Putin, comentou, por videoconferência, que o processo de fim da hegemonia do dólar nas transações comerciais globais era "irreversível". Brics empresta em rands sul-africanos Na semana passada, a instituição realizou a primeira venda de títulos da dívida em rands sul-africanos: um título de cinco anos de 1 bilhão de rands, o equivalente a US$ 53,1 milhões. A presidente do banco, Dilma Rousseff, declarou que o NDB espera emprestar até US$ 10 bilhões este ano para os países membros, dos quais cerca de 30% devem ser nas moedas locais – incluindo ainda o real brasileiro, o rublo russo e a rúpia indiana. “Brigar com os Estados Unidos e o sistema financeiro mundial não é fácil. O fato de o Banco do Brics trazer essa agenda e puxar essa discussão favorece para que, eventualmente, as transações comerciais entre os países possam usar outras moedas. É possível? Sim, depende obviamente da conversa, do entendimento político, mas isso não é uma ação que se esgota nos dois dias de conversas em Joanesburgo”, salienta Bosco Monte.

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O que é a 'economia verde' e como ela será cada vez mais presente na sua vida

8/2/2023
O termo está por todo o lado e, cada vez mais, nos discursos dos políticos. Mas o quê, afinal, significa uma economia verde? O termo designa as diversas formas pelas quais o mundo continuará a gerar riquezas e crescimento econômico, mas sem piorar ainda mais o aquecimento global. Para isso, é preciso cortar emissões de gases de efeito estufa, que causam o aumento da temperatura do planeta, das atividades que fazem uma economia girar: indústria, infraestruturas, construção civil, agricultura, comércio, transportes e tantos outros aspectos presentes no dia a dia das populações. “A economia tem três pilares: produção, distribuição e consumo. A economia verde traz critérios de sustentabilidade, de conservação, de responsabilidade social para esses três pilares”, explica Mercedes Bustamante, professora do Laboratório de Ecossistemas da UNB e cientista membro do IPCC. Ela ressalta que a economia verde enfatiza diversos conceitos que podem estar à mão do consumidor, como compartilhamento e circularidade – que geram menos consumo e reaproveitam melhor os recursos do planeta. “A partir do momento em que as pessoas começam a entender de onde vem o que elas consomem, como é produzido e quais as consequências, elas passam a ter um consumo mais consciente e a se envolver, cobrando isso das empresas e do poder público”, aponta Bustamante. Envolver o sistema financeiro A economia verde é transversal e engloba até áreas como a bancária e financeira. “O setor financeiro é conservador, olha o histórico de rentabilidade dos empreendimentos. Então, os tradicionais, como o petróleo e gás, que ao longo de décadas tiveram um histórico extremamente favorável, têm acesso facilitado ao capital”, ressalta Luciane Moessa, diretora-executiva da Soluções Inclusivas Sustentáveis (SIS), que analisa o desempenho das principais instituições do setor e aponta como podem melhorar. Ex-procuradora do Banco Central, Moessa tem atuado para facilitar a conexão entre o sistema financeiro e o desenvolvimento sustentável. “O setor financeiro tem operado a partir de premissas equivocadas, que olham somente para o passado, o que faz com que tecnologias novas, que têm grande potencial de crescimento, sejam olhadas como muito arriscadas e tenham menos acesso a crédito”, afirma. “Um crédito pode ser considerado sustentável de duas formas: por não causar danos ambientais, sociais ou climáticos – que é o mínimo que se deveria esperar, mas infelizmente está longe de ser a regra – ou porque ele causa um impacto positivo do ponto de vista ambiental, contribuir para que a nossa economia, que hoje não é sustentável, como um todo, se sustente no longo prazo.” Energia e o hidrogênio verde, o 'combustível do futuro' Cada país tem os seus próprios desafios rumo à sustentabilidade – mas o setor de energia é um ponto-chave para todos. As emissões energéticas são responsáveis por nada menos do que 40% do total de CO2 e outros gases despejados na atmosfera. Não à toa, nos quatro cantos do globo, países e empresas buscam tornar o setor menos prejudicial para o planeta. Esse é um exemplo do quanto a economia verde também significa um manancial de oportunidades. Nas energias renováveis, o Brasil tem potencial de se transformar em uma referência mundial em solar e eólica, mas também na produção e exportação de hidrogênio – apontado como o combustível do futuro. “A produção do chamado hidrogênio verde demanda energias renováveis, e representa uma janela de oportunidade para o Brasil e sobretudo algumas regiões com enorme potencial de desenvolvimento das renováveis, como o Nordeste, além de trazer novas oportunidades de emprego. Por isso é muito importante associar a formação e qualificação dos recursos humanos, para serem capazes de lidar com esses novos processos”, salienta Bustamante, que desde janeiro é também presidente da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Agricultura de baixo carbono Por outro lado, o Brasil ainda tem um enorme dever de casa...

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Venda do Grupo Pão de Açúcar pelo Casino francês anima compradores no Brasil e no mundo

7/19/2023
Enquanto o futuro do poderoso Grupo Casino está em jogo na França, no Brasil a expectativa é para onde vai o Grupo Pão de Açúcar (GPA), tirado das mãos do empresário Abílio Diniz há 11 anos, quando foi adquirido pela gigante francesa do varejo. A negociação mobiliza potenciais compradores no Brasil e no exterior, incluindo concorrentes e o próprio Diniz. Lúcia Müzell, da RFI Afundado em dívidas, o Casino começou a se desfazer de ativos espalhados pelo mundo desde 2014, mas a crise gerada pela pandemia e em especial na América Latina só piorou o quadro, que o contexto inflacionário e de juros na Europa terminou de sepultar. No fim de junho, a companhia anunciou a intenção de vender as suas parcelas no GPA, do qual é acionista controlador, com 40,9% dos papéis. Em todo o Brasil, são quase mil lojas em jogo – é o segundo maior pilar do grupo francês no mundo. Em março, a companhia já se desfez de 12% do seu capital da rede Assaí, com a qual levantou € 600 milhões para conseguir respirar até o fim do ano, em conjunto com medidas de emergência negociadas com os credores e o governo francês. Na América Latina, o Casino ainda tem forte presença na rede colombiana Éxito – que também será cedido, como parte do plano de reestruturação da gigante do varejo. “Estamos todos empolgados com essa mudança. A gente tem visto todos os agentes envolvidos nessa cadeia de valor muito atentos e querendo no mínimo analisar a oportunidade – seja outras redes, fundos de investimentos ou de mercado de alimentação dentro do lar”, observa Eduardo Yamashita, COO da consultoria especializada em varejo Gouvêa Ecosystem. "Essa operação do Casino está menos conectada com a operação brasileira e mais com os negócios internacionais do grupo. É por isso que a gente tem visto essa quantidade de interessados no ativo GPA, que é realmente único.” Revanche de Diniz? Na época da venda do Grupo Pão de Açúcar, a família Diniz enfrentou uma longa batalha para evitar a aquisição pelo CEO e acionista majoritário do Casino, Jean-Charles Naouri – que acabou vencendo a disputa. Abílio levou anos para superar a perda do controle da rede varejista fundada pelo seu pai, Valentim, no fim dos anos 1940. Desde então, uniu-se à rival francesa Carrefour, da qual é vice-presidente do conselho de administração no Brasil e um dos principais acionistas no grupo global. O mercado especula se teria chegado a hora da revanche do empresário brasileiro face a Naouri – pessoalmente ou via Carrefour. "Essa história é icônica e o Abílio e a família falam abertamente sobre esse tema nos livros que já foram escritos. Foi um capítulo importantíssimo na história do varejo brasileiro”, destaca Yamashita. O analista salienta que "obviamente o Abílio e o seu family office são grandes candidatos” para retomar o GPA, assim como o Carrefour – mas estão longe de serem os únicos. "Fundos de investimentos nacionais e internacionais estão com um apetite muito grande. A negociação de um bloco tão relevante de um varejista com uma presença tão grande, principalmente no sudeste, que já consolidado e é o maior mercado do Brasil, com marcas próprias e os avanços tecnológicos que eles fizeram, são ativos que chamam muita atenção”, insiste. Jean-Charles Naouri, um 'tubarão' devorado pela própria ganância O empresário francês foi apelidado de “lobo”, “tubarão” ou “predador”, depois de consolidar o método de entrar aos poucos no capital de empresas familiares em apuros, mas sempre com opção de compra futura – que na maioria dos casos, se tornava fatal, como no Grupo Pão de Açúcar. Era o auge da expansão fulminante do Casino por mercados emergentes, sob o comando de Naouri. “Toda a vez que entra um player como o Casino, relevante globalmente, o mercado brasileiro amadurece muito. Isso aconteceu em todos os episódios, de uma maneira geral, e não só no segmento alimentar”, relembra Yamashita. "Foi assim com a entrada do WalMart no Brasil – que depois saiu, mas isso faz com que o mercado no Brasil elevasse a...

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