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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.
Location:
Paris, France
Networks:
RFI
Description:
Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.
Language:
Portuguese
Episodes
Embratur leva Amazônia ao público e a profissionais no maior festival de curtas-metragens do mundo
2/5/2026
Pela primeira vez, a Embratur marca presença no Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, no centro da França, com uma sessão pública de filmes financiados pela agência no segundo edital do programa Brasil com S – uma vitrine que aposta no cinema como motor de curiosidade turística e janela de descoberta do Brasil.
O Brasil com S vai além do financiamento: ajuda a formar e a lapidar os filmes que apoia. Christiano Braga Lima, coordenador de audiovisual e economia criativa da agência, resume bem a lógica: “Não é só um edital que a gente dá um recurso e o produtor se vira.”
O programa desenha uma trajetória completa para os selecionados, do roteiro à distribuição internacional, e faz isso por meio de mentorias técnicas que envolvem parceiros estratégicos. Entre eles está o Projeto Paradiso Multiplica, iniciativa que difunde conhecimento no setor audiovisual conectando profissionais experientes a novos realizadores. E há ainda o olhar de Denise Jancar, consultora com longa atuação em mercados e festivais, conhecida por orientar projetos em circulação global e por representar filmes brasileiros no exterior. “É um edital em que a gente, além de fazer o fomento, faz um trabalho de mentoria”, reforça Christiano.
A aposta da Embratur é simples: usar o cinema para emocionar, seduzir e informar. “A gente entende o audiovisual como uma janela para promoção do Brasil, para o despertar do interesse internacional pelo Brasil”, afirma o coordenador. Ele lembra que, dentro da agência, a proximidade entre turismo e cinema não é improviso – é estratégia. “A Embratur entendeu a importância do turismo dialogar com o audiovisual e construir uma relação orgânica entre esses dois segmentos”, diz o economista, que tem trajetória nas políticas culturais.
Nesta edição, o recorte tem endereço: a Amazônia. “Aconteceu a COP no Brasil, então a gente queria chamar a atenção para aquele território, para sua potência.” Das 170 propostas inscritas, surgiram cinco filmes, cada um com uma forma de traduzir o Norte.
“Amassunu”, com direção de Juliana Boechat e Venusto, aposta no sensorial da culinária e da paisagem amazônica; “O Retorno”, de César Meneghetti com Mario Gianni, revisita memória e ética documental entre os Yanomami; “Te Vejo na Próxima Saída do Boi”, da realizadora Keila Sankofa, mergulha no imaginário popular do Pará; “Beira”, dirigido por Marcela Bonfim, evoca ancestralidade em Porto Velho; e “Bici”, única animação assinada por Otoniel Oliveira, transforma uma bicicleta em símbolo de resiliência em Afuá, na Ilha de Marajó.
Histórias para superar estereótipos
Os curtas tentam desmontar clichês. “A gente sabe que o mundo conhece ainda pouco a Amazônia, ou se conhece, conhece a partir de estereótipos”, observa Christiano. A seleção busca justamente apresentar outras camadas: “Criar uma percepção positiva em relação a esse território e toda a sua riqueza cultural, sua diversidade natural, sua riqueza urbana”.
A experiência da primeira edição do Brasil com S já mostrava que havia fôlego para uma trajetória internacional, mesmo antes da criação das mentorias. “Na primeira edição, a gente teve 400 inscrições e escolhemos cinco curtas, quando a gente ainda não tinha uma mentoria.” Ainda assim, um dos selecionados, “Entre Sinais e Marés” – filmado na Ilha do Mel com elenco e direção formados inteiramente por profissionais surdos – percorreu mais de 50 festivais no Brasil e no exterior, conquistando prêmios, incluindo um festival dedicado ao público surdo no Canadá. Para Christiano, o desempenho desse curta é a prova de que o programa já nascia com potencial de voo próprio: “Sem a mentoria, você já teve ali curtas que tiveram uma carreira, viajaram internacionalmente.”
O cinema brasileiro experimenta um alcance internacional pouco habitual, com títulos como “Ainda Estou Aqui“ e “O Agente Secreto“ abrindo portas e reacendendo o interesse estrangeiro por produções do país. “É um momento importante para o Brasil aproveitar”,...
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Gregorio Graziosi revisita a paixão do curta e celebra inovação como jurado em Clermont-Ferrand
2/4/2026
O diretor, roteirista e ator brasileiro Gregorio Graziosi vive dias de entusiasmo intenso diante do que descreve como uma das mostras mais radicais e instigantes da Europa. Membro do júri da competição Labo, dedicada a filmes inovadores no Festival de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, ele participa da celebração dos 25 anos da seção em um momento que considera um ponto de virada na forma de pensar o cinema.
Graziosi descreve a Labo como um espaço que procura curtas de vanguarda, “filmes que conseguem narrar com imagem e som de uma maneira muito particular”. Para ele, participar do júri tem sido uma experiência transformadora, sobretudo por testemunhar a resposta do público nas salas lotadas. “Você sente no silêncio da sala. Percebe hesitações, gargalhadas, a sensação de medo ou surpresa. Isso é mágico”, afirma.
Ele lembra que, após a pandemia, muitos espectadores se habituaram a ver filmes sozinhos, o que torna ainda mais impressionante ver sessões esgotadas. “As pessoas enfrentam as adversidades climáticas para lotar sessões”, comenta.
Para Graziosi, assistir aos filmes junto ao público é parte fundamental da criação. “Existe uma questão física, independentemente de como os filmes foram captados, de como eles vão tocar a alma humana – isso não tem preço”. Essa comunhão na sala escura, diz ele, é o que torna tão especial sua participação no júri.
Entre os 24 filmes selecionados, metade documentários, Graziosi destaca a relevância crescente de uma nova fronteira narrativa: a inteligência artificial. O tema, afirma, exige debate aprofundado.
“Esse ano tem um ponto de virada, que é a questão do uso da inteligência artificial para a criação dos filmes. Isso é algo que preciso debater com os outros jurados e que vamos conversar muito nos próximos anos.”
Ainda assim, ele insiste que a tecnologia jamais substituirá o essencial: “Independente da ferramenta, o mais importante é a narrativa – o que você quer dizer e como isso impacta o público.”
O poder do curta: paixão como ponto de partida
Antes de dirigir longas, Graziosi construiu carreira sólida nos curtas, entre 2007 e 2012. “O curta-metragem é um formato independente. A paixão é o principal ponto de criação. Quem acompanha o festival sente isso. A paixão dos diretores contagia o público, a equipe, está na tela.”
Ser convidado para o júri tem sabor de reencontro. Graziosi já exibiu dois filmes na Labo e viveu ali experiências definidoras:
“Lembro da emoção que tive quando fui selecionado pela primeira vez e do impacto de perceber que tinha oito exibições de um curta. O curta não era uma coisa à parte, era o principal. Isso é emocionante.”
Ele também recorda com carinho o filme feito para a banda inglesa Tindersticks, encomendado justamente pelo festival – laço que intensificou a sensação de “casa” ao voltar como jurado.
O cineasta trabalha atualmente em seu terceiro longa, “O Demônio na Fábrica”, desenvolvido em residência da Cinéfondation do Festival de Cannes. A partir de uma revisão de materiais antigos – curtas, videoclipes, filmes inacabados –, ele percebeu que já vinha elaborando, fragmento a fragmento, um novo projeto. Dessa constatação surgiu outro filme: um longa intimista, centrado numa casa.
“É um filme que poderia ter sido meu primeiro, mas precisava de mais maturidade emocional. Às vezes os projetos mais simples exigem mais coragem, porque você precisa colocar o coração na tela.”
Rodado integralmente numa única locação, o longa explora tempo, espaço e memória: “É um filme de escala menor, mas que tem muito coração. Estou apaixonado por fazer.”
A experiência como ator em “O Agente Secreto”
Além de diretor, Graziosi fez parte do elenco de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho – indicado a quatro Oscars. Ele comenta com admiração a forma como o cineasta pernambucano dirige atores. “Ver o Kleber trabalhando no set é mágico. Ele é um maestro, (...) cria um tema e improvisa como um músico de jazz. O resultado é incrível.”
Em Clermont-Ferrand,...
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Curta 'Mira' da cineasta paulista Daniella Saba disputa prêmio em competição oficial na França
2/3/2026
Filmes de quatro cineastas brasileiros disputam prêmios no Festival de Curtas-Metragens de Clermont- Ferrant, que acontece até sábado (7) no centro da França. A paulista Daniella Saba é a única mulher do grupo de contemplados. Ela concorre com o curta-metragem “Mira”, uma produção francesa integralmente filmada no Brasil e que foi selecionada para a competição nacional, ao lado de outros 50 filmes franceses.
“Mira” acompanha a história de uma menina de 14 anos que cresceu em uma área de descanso de caminhoneiros. Criada entre motoristas, ela sempre sonhou em dirigir caminhão. Mas a chegada da adolescência transforma a forma como ela é vista naquele ambiente majoritariamente masculino. Segundo Saba, “ela vai entender o que significa ser mulher num espaço que não é reservado a nós, mulheres”. A diretora conta que quis explorar esse momento de ruptura: a passagem da infância à adolescência num espaço onde o corpo feminino passa a ser observado de outra maneira.
Radicada na França há 16 anos, Saba comemora a primeira seleção de um filme seu em uma mostra competitiva. “É uma honra, porque é um dos festivais de curta mais importantes do mundo, então é um reconhecimento. Só a seleção para mim já é um prêmio”, afirma. Para a realizadora e roteirista, estar em Clermont-Ferrand é também uma oportunidade de continuidade profissional: “É uma vitrine, uma forma da gente continuar trabalhando e dar continuidade para esse trabalho que foi feito, que no caso é o ‘Mira’, e que agora vai virar outros filmes no futuro.”
A diretora explica que festivais funcionam como porta de entrada para novos projetos, especialmente para realizadores de curta-metragem. “O festival acaba sendo o lugar onde a gente mostra o nosso trabalho. Quando a gente faz um compromisso para trabalhar num longa, são muitos anos trabalhando no mesmo projeto”, observa.
Longa-metragem no sertão de Alagoas
Além da promoção de “Mira”, Daniella Saba está atualmente dedicada ao desenvolvimento de seu primeiro longa-metragem, uma coprodução franco-brasileira. “A gente já tem o roteiro, ele está no final da captação de recursos. É um filme que é necessariamente filmado no Brasil”, explica. O longa será um road movie sobre uma mulher francesa que acompanha o ex-marido em uma viagem pelo sertão de Alagoas na busca por sua família biológica após uma adoção ilegal. “É uma comédia dramática”, resume.
A cineasta também comenta as condições de financiamento nos dois países onde atua. Ela destaca que “Mira” contou com ajuda regional francesa, mas não recebeu apoio brasileiro. Ainda assim, enfatiza a importância de políticas públicas no setor: “É muito importante a gente poder desenvolver os curtas-metragens. Dá uma possibilidade desses filmes existirem, até para propulsar a nossa produção para os longas-metragens também.” Para Saba, o interesse internacional por obras brasileiras está em alta: “A gente tem uma cultura muito forte, a gente tem um olhar muito singular e eu acho que eles se interessam.”
Especialista em ficção, a diretora também fala de sua relação com o gênero: “Eu adoro trabalhar os diálogos, adoro trabalhar o universo dos personagens. Na minha filmografia tem um documentário, mas a minha especialidade é a ficção.”
Desigualdades persistentes para mulheres cineastas
Sobre a presença feminina no cinema, Daniella Saba considera a desigualdade gritante: “Uma mulher cineasta tem muito mais dificuldade. Quando a gente lê os relatórios, com os números, com os gráficos, é incomparável.” Segundo a diretora, apenas uma parcela muito pequena das produções tem mulheres no comando. “A gente ainda tem muito trabalho pela frente como cineasta.”
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'Democratizar o acesso é um dos principais desafios para tratar o câncer no Brasil', diz oncologista
2/2/2026
Nesta quarta-feira (4) é comemorado o Dia Mundial de Luta contra o Câncer, doença que cresce em todas as faixas etárias e atinge cada vez mais jovens. A incidência de novos casos pode chegar a cerca de 35 milhões de pessoas em 2050, um aumento de aproximadamente 77%, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Apesar do crescimento da doença, o câncer deixou há algum tempo de ser uma sentença de morte, diz o oncologista clínico Thiago Kaike, do Hospital Mater Dei, em Salvador.
Segundo ele, com os novos tratamentos e diagnósticos cada vez mais precoces, hoje o paciente diagnosticado com um câncer tem maior possibilidade de remissão e cura, em função do acesso aos tratamentos. Mas é preciso democratizar o atendimento no Brasil, ressalta o especialista.
“A oncologia vem evoluindo e todos os dias saem novos estudos, mas a gente tem uma discrepância entre o atendimento no hospital público e no privado e um abismo entre os pacientes atendidos nos dois sistemas.”
De acordo com ele, é preciso também possibilitar o acesso – hoje concentrado nas capitais – aos pacientes que residem no interior. A luta contra a desinformação, que prejudica os pacientes, é outra prioridade.
“Hoje as fake news são uma grande rival. O que percebemos é que o paciente oncológico se sente vulnerável, e percebemos que as pessoas agem de má-fé, explorando essa fragilidade. Isso é muito cruel”, ressalta.
Ouça a entrevista completa clicando no player.
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Elogiado pela crítica, Diogo Strausz lança “Dance para se Salvar” no New Morning
1/29/2026
Produtor, DJ e multi-instrumentista carioca, Diogo Strausz tornou-se, nos últimos anos, um dos nomes mais comentados da cena groove franco-brasileira. Seu novo álbum, “Dance para se Salvar”, lançado pela francesa Favorite Recordings, já vinha cercado de entusiasmo da crítica especializada, que destaca a fusão de disco-funk brasileiro com música eletrônica em arranjos luminosos.
Críticos descrevem o disco como um “retrato coerente”, “ensolarado” e “movido por uma filosofia da dança como gesto vital”. O show de lançamento no mítico New Morning, em Paris, onde Strausz se apresenta no dia 31 de janeiro, reforça seu bom momento – a própria sala o define como “uma das figuras mais criativas da cena groove internacional”.
O álbum, reconhecido por sua alma “quente” e “polida”, fruto do uso de fita analógica e equipamentos vintage, impõe o desafio de levar esse universo ao palco. A RFI perguntou a Strausz como isso se transforma ao vivo.
“É a diferença entre a fantasia e a realidade. Cada escolha que você faz em estúdio, em algum momento você quer ver aquilo ser dividido com um número grande de pessoas e você quer transformar aquilo num momento de coletividade”, diz, explicando que será acompanhado por uma banda no palco, diferente do formato solo que fez com frequência até agora. “Seremos seis músicos no palco. A gente está formatando um show superespecial só para essa ocasião”, conta o multi-instrumentista. Ele dividirá a cena com músicos dos grupos Aldorande, Gin Tonic Orchestra, Jéroboam e a cantora Gabriella Lima.
O conceito da dança como resistência
A crítica internacional destacou o caráter filosófico do álbum, visto como um “manifesto de sobrevivência” e uma ode ao movimento como cura coletiva. Quando perguntado sobre quando essa ideia virou o eixo do disco, Strausz disse: “Acho que a partir do momento em que a gente se percebe virando consumidores zumbis na atual conjuntura (...), acho que o dançar é um gesto de recuperação desse presente, da nossa consciência do corpo.”
A França como impulso
Strausz começou a fazer música aos 4 anos de idade. “Acho que era uma fuga para mim de qualquer situação desconfortável.” Sobre o que tem ouvido ultimamente, ele cita os últimos discos de Zeca Veloso, Dora Morelenbau e as criações do produtor francês de funk carioca Weal Starcks.
A crítica francesa apresenta o carioca como renovador da estética groove e ponte entre cenas. Perguntamos o que a França lhe deu de diferente: “A estrutura de suporte à cultura que existe aqui te dá um tônus e um eixo para você botar uma fé em si próprio. (…) Ter me tornado 'intermittent du spectacle' foi uma coisa que me deu uma coragem para apostar em mim mesmo que eu nunca tinha tido antes.”
Strausz se refere a um sistema de apoio a artistas e técnicos do espetáculo em que o Estado francês garante uma remuneração aos cotistas durante o período de criação e produção, não apenas quando estão em cena. Segundo ele, “isso pode ter definido a minha carreira. Provavelmente definiu o lugar que eu estou hoje.”
Com o álbum recém-lançado na França, elogiado como um tributo contemporâneo ao disco-funk dos anos 70-80 e celebrado por sua energia dançante e detalhismo sonoro, Strausz diz estar totalmente concentrado nas próximas turnês.
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Artista brasileira Laura Lima abre sua maior exposição solo em Londres
1/27/2026
Artista visual mineira Laura Lima abre sua maior exposição solo no Instituto de Arte Contemporânea em Londres com obras jamais vistas em três décadas de carreira. The Drawing Drawing instiga o público a questionar normas, expectativas, espaço e tempo ao interagir com suas obras.
Yula Rocha, correspondente da RFI em Londres
Para Laura Lima, arte é movimento, e assim começa a entrevista, com a artista de costas, sentada em uma plataforma giratória. A mineira de Governador Valadares, que já foi dançarina, explica que o título la mostra, que ocupa dois andares do Instituto de Arte Contemporânea, com trabalho comissionado especialmente para o espaço, pode ser traduzido em português como "Desenho em Desenho", "Desenho sobre Desenho", mas também como "Desenho Desenhando", reforçando essa ideia de movimento.
A primeira reação ao entrar na exposição é perceber que há uma pessoa nua na sala - um modelo vivo profissional - deitada em uma das plataformas redondas de madeira que se movem suavemente em todas as direções. Mas como toda instalação de Laura Lima, o público não está aqui apenas para observar ou participar de uma aula tradicional de modelo vivo. A brasileira desconstrói essa prática artística do século dezesseis ao nos convidar a ocupar outras plataformas rotatórias. Cada uma tem um banco de madeira, um cavalete e material artístico à disposição para desenhar o modelo nu presente na sala.
“Tem uma coisa só distinta: não só o modelo pode estar virado para qualquer direção como também aquele que o desenha. E aí a gente se pergunta - esse que desenha, ele foca? Foca em quê se tudo se move? Que tipo de perspectiva ele vai construir no seu desenho? O desenho pode ser um instrumento de autêntica radicalidade”, explica a artista à RFI.
Os desenhos do público podem ser levados para casa ou colocados em uma caixa na galeria para depois serem expostos no corredor central do Instituto de Arte Contemporânea (ICA).
O centro cultural, com salas de cinema e áreas de exposição, fica em um endereço central de Londres, o Mall, que liga o Palácio de Buckingham a Trafalgar Square. O ICA nasceu em 1948 dedicado à arte experimental na capital britânica. Francis Bacon, Pablo Picasso e Steve McQueen já apresentaram suas obras nesse mesmo espaço hoje ocupado pela brasileira convidada pela curadora do Instituto a montar essa exposição.
“Esse é um lugar absorvente de uma certa experimentação que sempre é necessária, porque mesmo artistas clássicos já propunham coisas interessantes", analisa. "Essa é uma instituição que passou a ser um histórico de radicalidade. Eu ouvi dizer que o ICA foi criado em contraposição aos processos trabalhados na Royal Academy. Eu fui lá olhar uma aula de desenho, ver a forma como eles trabalhavam para poder me inspirar a fazer alguma coisa aqui”, relata.
Londres não foi inspiração para tudo. Laura Lima traz para a cidade materiais já vistos no Brasil, em Barcelona, na Espanha e em Nova York. De seu Balé Literal, está presente um grande para-sol vermelho dançante de cabeça para baixo movido por controle remoto e acompanhado de artistas - ou trabalhos vivos como ela se refere - que interagem com a obra.
Para a mostra The Drawing Drawing, Laura resgata um projeto do início da carreira que nem o público brasileiro conhece. Em um grande freezer, há bandejas com imagens congeladas que, ao derreterem, se transformam e se revelam diante dos olhos do público. De novo, a ideia da arte em movimento é presente.
“Uma pintura dentro de um museu também está em movimento, uma vez que uma pintura a óleo está se oxidando. A gente acha que as coisas são estanques, mas não são. Como então a gente mantém obras que são feitas de gelo? É claro que estou falando muito em movimento, isso está sempre no meu trabalho. Esse é quase um recado de que, apesar de tentar conter as coisas, é preciso sempre repensar que tipo de ética você constrói ao redor disso”, explica.
Ao lado da geladeira, há uma obra do futuro, porque tempo também é movimento....
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‘Brasil é um paraíso de dados’: pesquisadora da USP fala em Paris sobre justiça e tecnologia
1/26/2026
A professora Maria Paula Bertran, da Faculdade de Direito da USP de Ribeirão Preto e pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados da universidade, esteve na França como professora convidada da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais de Paris (EHESS). Em conversa com a RFI, ela comentou avanços recentes do Brasil em litígios no exterior, o papel da tecnologia no direito e suas pesquisas sobre grandes casos judiciais, como a Operação Lava Jato.
Bertran destacou a decisão da Justiça britânica que rejeitou o pedido de recurso da mineradora BHP no caso da Barragem do Fundão, em Mariana, em 2015. A decisão abre caminho para o pagamento de bilhões de libras em indenizações a 620 mil requerentes do processo.
Para ela, trata-se de uma “vitória dos seres humanos”, já que a justiça inglesa atribui um patamar mais elevado ao sofrimento das pessoas afetadas. Segundo a pesquisadora, “a quantificação dos danos em países centrais costuma reconhecer a gravidade do impacto com mais amplitude do que no Brasil”, o que explica o valor potencialmente maior das indenizações obtidas na Inglaterra.
Brasil: um paraíso de dados
Especialista em jurimetria — o uso de dados e estatística aplicados ao direito —, Bertran afirma que a tecnologia está alterando profundamente a própria natureza da ciência jurídica. “O que antes dependia apenas de argumentos e da capacidade de persuasão agora pode ser demonstrado e quantificado”, diz. “É uma transformação paradigmática”, completa. Nesse campo, ela considera que o Brasil está na vanguarda pela enorme disponibilidade de dados públicos.
Bertrand define o Brasil como um “paraíso de dados”, analogia ao conceito de paraíso fiscal. Essa abundância de informações favorece diagnósticos mais precisos e decisões mais coerentes, mas também cria desafios, como “o aumento da litigância predatória”.
A professora cita o exemplo das ações por atrasos e cancelamentos de voos. Se antes o passageiro avaliava individualmente seu próprio dano e decidia buscar ou não um advogado, hoje sistemas tecnológicos permitem que advogados acessem listas de passageiros e os contactem diretamente. Isso leva ao ingresso de ações em massa — mesmo por pessoas que nem sempre se sentiriam prejudicadas — e pressiona o Judiciário, que enfrenta volumes inéditos de processos. Apesar disso, Bertran considera que a transparência brasileira continua sendo um diferencial positivo.
Escândalo do Banco Master “poderia ter sido evitado”
A pesquisadora também esteve em Hamburgo, na Alemanha, para discutir a importância de bancos de dados judiciais públicos. Nesse contexto, comentou o caso recente envolvendo o Banco Master. Ela explica que sua equipe desenvolveu um “Índice de Litigância”, que relaciona o número de processos ao número de clientes, permitindo identificar comportamentos anormais.
O Master aparecia entre os líderes de litigiosidade — especialmente como réu —, o que indicava sinais de alerta. Para Bertran, faltou atenção dos órgãos reguladores, como o Banco Central, que ainda não exploram plenamente o potencial dos dados públicos, ao contrário do Judiciário, mais aberto a essas ferramentas.
Lava Jato refletiu a política brasileira
Ao falar sobre a Operação Lava Jato, Bertran descreveu o trabalho de sua equipe com cerca de 1.200 réus envolvidos no caso. Iniciada em março de 2014, a Operação Lava Jato foi a maior investigação sobre corrupção realizada no Brasil e descobriu um megaesquema de corrupção na Petrobras envolvendo políticos de diferentes partidos e outras empresas públicas e privadas.
Um dos resultados mais relevantes, segundo Bertrand, diz respeito à filiação partidária dos acusados. O levantamento revelou que o maior número de réus pertencia ao MDB, o maior partido brasileiro em número de filiados, e não ao PT, como frequentemente se supunha. Segundo a pesquisadora, há correspondência entre o tamanho dos partidos e o número de acusados, o que mostra que a Lava Jato refletia a estrutura política do país, com presença de...
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'Eldorado': Marcello Quintanilha lança thriller social ambientado na classe trabalhadora dos anos 50
1/21/2026
O quadrinista e escritor brasileiro Marcello Quintanilha lança na Europa seu novo álbum, “Eldorado”, publicado em francês pela editora belga Le Lombard. A obra retoma a trajetória do pai, Hélcio Carneiro Quintanilha, ex-jogador profissional de futebol em Niterói, tema que o autor já havia explorado em livros anteriores.
“Eldorado” é um thriller neorrealista ambientado no Brasil entre as décadas de 1950 e 1970. A narrativa acompanha uma família modesta de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense: o caçula, Hélcio, sonha em seguir carreira no futebol, enquanto o irmão mais velho, Luiz Alberto, inicia um percurso de delinquência. O livro transforma essas vidas em um drama policial, familiar e político que entrelaça ficção e memória para retratar um país que se desenvolve marcado por extrema desigualdade.
O álbum começa com uma sequência em preto e branco na qual Quintanilha reconstrói a formação da sociedade brasileira logo após o fim da escravidão, em 1888, e a Proclamação da República, no ano seguinte. O autor mostra como os africanos e seus descendentes, a força de trabalho que sustentou a economia agrária por séculos no Brasil, foram abandonados pelo novo Estado republicano, que, no início do século XX, optou por substituí-los por imigrantes europeus numa política deliberada de branqueamento.
Com a industrialização tardia, em parte financiada pelo capital inglês, o futebol é introduzido no país – primeiro como esporte de ricos, depois apropriado pelas classes populares, sobretudo pela população negra e pobre. Esse movimento, considerado "revolucionário" por Quintanilha, transformou o futebol em expressão social e cultural, e em um dos eixos da identidade brasileira.
Para Quintanilha, vencedor do troféu Fauve d’Or no Festival de Quadrinhos de Angoulême (2022) com o álbum “Escuta, Formosa Márcia”, revisitar esse percurso é essencial: “Para mim é sempre importante ter a perspectiva do passado, quais são os pontos que nos ligam com o passado, que têm efeito na nossa vida na atualidade.”
Os personagens Hélcio e Luiz Alberto representam dois caminhos possíveis num Brasil desigual: o sonho do futebol e o desvio para a criminalidade. O autor conta que se inspirou na fábula do filho pródigo. “Seria um pouco como recriar essa fábula no seio da classe trabalhadora.”
Segundo Quintanilha, Hélcio reproduz a história que trata do pai do escritor, fortemente ancorada na realidade, enquanto a do irmão é ficcional. “Toda a trama policial que a história tem, tudo isso é ficção. Mas espelhada no que foi a realidade do meu pai, o que acho fascinante.”
Duque de Caxias imaginária
O cenário é ambientado em Duque de Caxias, onde o pai de Quintanilha morou antes de se mudar com a família para Niterói, mas a cidade foi deliberadamente recriada pelo autor. A imagem nasceu das histórias ouvidas na infância. “Enquanto eu cresci, muitas vezes eu ouvia o meu pai contar as histórias do que ele via na cidade de Duque de Caxias, então eu criei uma Duque de Caxias imaginária na minha cabeça.”
Sobre a linguagem visual, “Eldorado” traz um grafismo diferente dos livros anteriores. “A história determina a maneira como ela vai ser contada”, explica. A cada livro, ele busca técnicas e decupagens novas. “Cada novo livro é começar exatamente do zero, absolutamente do zero, o que me coloca sempre numa posição de estar sempre pisando em ovos, porque eu nunca sei exatamente qual é o terreno no qual estou me movendo.” E o desconforto vira potência. “O que, do ponto de vista artístico, eu acho muito instigante, porque te coloca numa posição de desconforto que pode ser muito interessante.”
Acolhimento do público
"Eldorado" é o romance gráfico mais longo do autor (272 páginas), publicado primeiro em francês, com tradução ainda por definir. O livro estará disponível nas livrarias em 30 de janeiro, com distribuição inicial na Bélgica, França, Suíça e no Canadá.
Vivendo em Barcelona há vários anos, quando Quintanilha fala do interesse do público europeu pela sua obra,...
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Um ano de intimidação estratégica: como Donald Trump redefiniu a política externa dos EUA
1/19/2026
Nesta terça-feira (20) faz um ano que o presidente norte-americano, Donald Trump, retornou à Casa Branca, e as piores previsões sobre a virulência do republicano se confirmam. Em 12 meses, ele redesenhou a política externa dos Estados Unidos com o retorno do uso explícito da força, o resgate de práticas intervencionistas e uma estratégia de intimidação permanente – inclusive contra aliados. Em entrevista à RFI, o professor Antonio Jorge Ramalho da Rocha, do Instituto de Relações Internacionais (IREL) da UnB, analisa esse primeiro ano do segundo mandato de Trump e afirma que há método por trás do caos.
O método da desestabilização é, segundo o especialista da Universidade de Brasília, a chave para compreender o comportamento de Trump. “Sim, há um método nesse processo e a lógica é de desestabilização”, resume Antonio Jorge Ramalho. O objetivo é manter todos – governos estrangeiros, atores econômicos e até aliados – “sempre na defensiva e divididos”, o que inviabiliza qualquer articulação consistente para conter os movimentos do governo americano. Não se trata de uma estratégia de longa duração, afirma: “Não há uma visão de mundo por trás disso. É um processo de atuação tático”.
O bombardeio contínuo de fatos e informações constitui a engrenagem central dessa tática. “Trump cria uma grande quantidade de informações, de fatos, de possibilidades, que obriga as pessoas a pararem tudo o que estão fazendo para reagir.” Nesse processo de saturação, ele consegue impor sua agenda de curto prazo. “Pode ser desde fechar um negócio para a família, conseguir um presente milionário, movimentar os mercados – anuncia uma coisa de manhã e as ações caem; à tarde anuncia outra e elas sobem. Tudo isso permeado por inside information”, afirma o professor, que descreve o método como “pressão permanente com objetivos discretos, transacionais e imediatos”. “Ele circula para quem lhe financiou a campanha ou por seus próprios braços no mercado financeiro, e faz dinheiro com isso.”
Convicções profundas, mas sem estratégia de longo prazo
O professor identifica, no entanto, dois pilares ideológicos que sustentam essas ações. O primeiro é a concepção de poder sem limites. “Ele tem a convicção de que o poder deve ser exercido sem freios e sem cerimônias”, afirma. Para Trump, a ampla capacidade militar, econômica e política dos Estados Unidos deve servir ao engrandecimento nacional – “mas não pelo país em si”. Trata-se de proteger e ampliar os interesses da parcela da sociedade “que dá as cartas”, e que sustenta politicamente o republicano.
O segundo pilar é a crença nas tarifas como instrumento central de política externa, herança de um pensamento mercantilista anacrônico. “É uma visão do século 19 em curso no século 21”, diz Antonio Jorge Ramalho. A imposição de tarifas seria, na visão trumpista, uma forma de aquisição de riqueza e poder. Mas, apesar de fornecer ganhos imediatos, produzirá efeitos negativos. “Vai reduzir no longo prazo o comércio e a eficiência da economia americana e global.” Ainda assim, o curto prazo se impõe: “Ele consegue retornos palpáveis, e é isso que o orienta.”
América Latina e a intervenção na Venezuela
O sequestro do venezuelano Nicolás Maduro por militares americanos, nos primeiros dias do ano, surpreendeu o governo brasileiro e motivou questionamentos na opinião pública sobre a possibilidade de novas ações semelhantes no continente. Entretanto, o professor da UnB afirma que a própria impossibilidade de prever os próximos passos é parte essencial da tática trumpista. “Não dá para saber, e não ficará claro, porque o método consiste justamente em alimentar a ambiguidade”, explica.
A fragilidade da estratégia de defesa brasileira
Antonio Jorge Ramalho é categórico ao afirmar que a Estratégia Nacional de Defesa do Brasil não está ajustada ao novo cenário regional. “A nossa estratégia precisa ser revista.” O principal problema é a dependência estrutural das Forças Armadas brasileiras em relação aos Estados Unidos....
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Brasil precisa de uma política industrial para se adaptar a acordo UE-Mercosul, diz professora
1/16/2026
Depois de mais de 25 anos de negociações, o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul deverá ser assinado oficialmente neste sábado (17), em Assunção, no Paraguai, e depois será ratificado pelo Parlamento Europeu. Aprovado por 21 dos 27 países do bloco europeu no dia 9 de janeiro, o tratado prevê a criação de um mercado comum de mais de 720 milhões de pessoas. Para entender melhor o impacto dessa medida, a RFI conversou com Cristina Helena Pinto de Mello, professora de Economia da graduação e do mestrado da PUC-SP.
RFI: Até agora, falou-se muito sobre as repercussões do acordo no setor agrícola, mas durante as negociações o Brasil lutou para defender a indústria brasileira da concorrência europeia. Esse tratado traz oportunidades para a indústria brasileira?
Cristina Helena: Sem um projeto industrial claro, esse acordo corre o risco de consolidar algumas das especializações já existentes. Falta ao Brasil uma agenda positiva para a área de indústrias e de serviços. Essa é uma fragilidade peculiar do caso brasileiro e da América Latina. Alguns países têm estratégias um pouco mais definidas, como o Paraguai e a Argentina, mas o Brasil seguramente não tem. Esse acordo deve trazer muito aprendizado para o Mercosul. Por exemplo, a Alemanha tem uma indústria muito forte de máquinas e equipamentos, e o acordo tende a consolidar ainda mais esse setor alemão. Ao mesmo tempo, pode reduzir o espaço das indústrias brasileiras do mesmo segmento. O ideal seria que, numa perspectiva multilateral, construíssemos cadeias produtivas integradas. Mas falta ao Brasil uma agenda doméstica e um plano consistente de reindustrialização. Entramos, portanto, de forma frágil nesse processo.
RFI: As pequenas e médias empresas brasileiras estão preparadas para concorrer no mercado europeu?
Cristina Helena: Seguramente não. Tampouco estão preparadas para identificar oportunidades de integração em cadeias produtivas com indústrias europeias. Os países europeus construíram, por meio de acordos complexos, um mercado altamente integrado. Mas isso ainda é um campo de aprendizado para o Mercosul. Os países do bloco precisam aprender a lidar com esse tipo de custo político em nome de um projeto de longo prazo.
RFI: Alguns pontos em que o Brasil poderia se beneficiar são a transição energética e o agronegócio sustentável. A senhora acha que o país está preparado?
Cristina Helena: Sim. O Brasil vem há bastante tempo trabalhando sua agropecuária com critérios e padrões internacionais. A agricultura brasileira é competitiva, produtiva e profissionalizada. Além disso, o país tem uma capacidade de produção de energia limpa inigualável.
RFI: O acordo entre a União Europeia e o Mercosul cria previsibilidade para investimentos no atual ambiente de retorno do protecionismo e de instabilidade geopolítica?
Cristina Helena: Acredito que sim. Ele abre espaços importantes de previsibilidade em relação aos acordos tarifários e de integração de mercado. Essa previsibilidade e essa segurança estão se perdendo no cenário global, especialmente em razão da atuação do presidente norte-americano, Donald Trump, que costuma ser bastante intempestivo em suas decisões. A União Europeia, ao contrário, tem uma governança sólida e uma estrutura política de construção de acordos que não é intempestiva. Isso confere maior estabilidade a acordos firmados com o bloco europeu.
RFI: Maior integração comercial favorece protagonismo político?
Cristina Helena: Diria que sim. O Brasil, sobretudo nos últimos anos, vem se colocando como uma voz importante na América Latina em defesa da democracia. Também é um ator político relevante internacionalmente, já que fala a partir de um espaço regional significativo, com projeção global. Isso é oportuno porque nos coloca numa posição que evita alinhar-se automaticamente às rivalidades entre Estados Unidos e China.
RFI: Como a senhora avalia a resistência da França ao acordo UE-Mercosul? Os agricultores estão preocupados, mas setores...
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Paris ganha galeria dedicada à arte contemporânea brasileira no Village Suisse
1/15/2026
A Gávea Galerie, criada pelo brasileiro Luiz Machado – radicado há três décadas na França –, acaba de abrir as portas no Village Suisse, endereço tradicional do 15º distrito e a poucos minutos da Torre Eiffel. A inauguração ocorre em um momento estratégico: ‘Paris voltou a ser o centro da arte mundial, sobretudo da arte contemporânea’, afirma Machado, apontando a força das grandes fundações e o enfraquecimento do mercado londrino.
Adriana Moysés, da RFI em Paris
A proposta da Gávea Galerie é trabalhar com nomes brasileiros de primeiro plano. “Começamos com três artistas e o quarto já está a caminho”, explica Machado. Entre eles, o carioca Gonçalo Ivo, “o grande colorista brasileiro atualmente, um dos melhores do Brasil”, com quem o galerista mantém uma relação de afinidade há mais de duas décadas. Também integra o time Jaildo Marinho, escultor pernambucano radicado em Paris, “um dos grandes artistas brasileiros que trabalha com mármore de forma maravilhosa”. A terceira é Lilian Morais, artista baiana que Machado traz pela primeira vez à Europa: “Espero que vá fazer sucesso, porque é uma artista de muito talento”.
Segundo Machado, o público francês demonstra curiosidade e receptividade pela arte brasileira. “O interesse existe e é muito forte. Quando você diz que vai representar artistas brasileiros, as pessoas se interessam. O Brasil é sempre bem-vindo na França”, afirma. Para ele, cabe aos galeristas desenvolver esse potencial e ampliar o intercâmbio cultural entre o Brasil e a Europa.
O charme do Village Suisse
Instalar-se no Village Suisse tem um peso simbólico. “É um lugar ‘vintage’ de Paris, consagrado às galerias de arte e antiquários, com mais de 60 galeristas próximos à Unesco e à Torre Eiffel”, descreve Machado. Criado em 1928, o local mantém sua aura sofisticada e, nos últimos anos, passou a atrair galerias de arte contemporânea: “Nós somos a oitava ou nona galeria contemporânea no espaço, que tem tudo a ver com esse projeto. Vai dar samba”, brinca o fundador.
A Gávea pretende dialogar tanto com colecionadores experientes quanto com quem deseja iniciar sua coleção. “O colecionador começa em algum momento, então é importante ter artistas novos para acompanhar esse público, ao mesmo tempo que buscamos inserir nossos artistas em grandes coleções”, explica Machado. Sua experiência no setor começou em 2011, com colaborações para a Galeria Boulakia, próxima da Avenue Montaigne. “A arte já estava na minha cabeça há muito tempo, sempre fui apaixonado. Com essa colaboração, apresentei clientes a eles, artistas, algumas galerias no Brasil e fui aprendendo aos poucos como funciona esse mercado”, conta Machado.
Paris no topo do mercado internacional
Para Machado, a capital francesa vive um momento único. “Dá para perceber que Paris voltou a ser a bola da vez da arte mundial, sobretudo da arte contemporânea, com as fundações Louis Vuitton e Cartier. Dá para perceber isso nas feiras e exposições temporárias, sempre lotadas, com público internacional muito grande”.
A Gávea Galeria funciona de quarta a segunda-feira, das 11h às 19h, no Village Suisse, boutique nº 20. Em 2028, o espaço celebrará o centenário do Village Suisse, reforçando a tradição do conjunto no coração artístico de Paris.
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Contestação pode dar lugar a ganhos: entrada em vigor pode mudar clima do acordo UE–Mercosul
1/12/2026
Os protestos de agricultores franceses contra o Acordo Comercial entre a União Europeia e o Mercosul continuam nesta segunda‑feira (12), com bloqueios de rodovias, acessos a portos e depósitos estratégicos na França. Ainda assim, na avaliação do cientista político Gaspard Estrada, “a partir do momento em que a parte comercial começar a funcionar, os efeitos positivos podem trazer novos argumentos para os defensores do acordo e reduzir a probabilidade de um bloqueio judicial”, disse à RFI.
A mobilização dos agricultores franceses ocorre após a aprovação do tratado por 21 dos 27 países do bloco europeu, na sexta‑feira (9), encerrando um processo de negociação que se arrastou por 25 anos. O pacto será assinado no sábado (17), no Paraguai, e depois deverá ser ratificado pelo Parlamento Europeu, onde pode enfrentar resistência de alguns parlamentares.
Para Estrada, membro da Unidade Sul Global da London School of Economics, o principal peso do acordo é político e simbólico, num contexto internacional marcado por tensões e críticas ao multilateralismo. “Reforçar um acordo multilateral baseado em regras, em normas, e não na força, é uma mensagem política muito forte neste momento de grande incerteza no cenário internacional”, destacou.
O pacto ainda precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu, onde já se anunciam disputas políticas e jurídicas, sobretudo nos países que votaram contra ou se abstiveram, como França, Áustria, Hungria, Irlanda, Polônia e Bélgica. Mesmo assim, Estrada avalia que existe hoje uma disposição clara para levar o processo adiante. “Há, por enquanto, uma vontade política que tem sido mantida. No fim do ano passado, havia o risco de a Itália bloquear o acordo, mas, após muita negociação, o governo italiano acabou apoiando a assinatura”, lembrou.
A pressão dos agricultores e a possibilidade de judicialização do tratado tendem a marcar os próximos meses em Bruxelas. “Já existem parlamentares falando em recorrer à Justiça europeia para tentar bloquear o acordo”, observou Estrada, acrescentando, porém, que o cenário não é de retrocesso imediato. “Eu prevejo uma grande discussão no Parlamento Europeu, mas também vejo muita vontade política de fazer esse acordo funcionar.” Segundo o pesquisador, a entrada em vigor do tratado pode, inclusive, mudar o clima político em torno dele.
Apesar de ser apresentado como o maior acordo comercial do mundo, reunindo um mercado de 722 milhões de consumidores, o tratado sofreu mudanças significativas ao longo das negociações. “Em 1999, os negociadores tinham combinado uma base de 200 mil toneladas anuais de carne bovina que poderiam ser exportadas sem tarifa pelo Mercosul. Esse número caiu para 99 mil toneladas no acordo final”, afirmou. Ainda assim, Estrada relativiza o impacto econômico dessas concessões.
Questionado sobre a possibilidade de alguns países simplesmente se recusarem a aplicar o acordo mesmo após a ratificação, Estrada foi categórico. “Eu vejo isso como algo difícil, porque, se cada país começar a agir por conta própria, a União Europeia deixa de funcionar.” Ele explicou que o bloco dispõe de “mecanismos de governança muito rígidos, com regras claras”, o que torna improvável uma aplicação seletiva do tratado.
Precedente com acordo assinado com o Canadá
O cientista político comparou o momento atual ao acordo comercial entre União Europeia e Canadá, o CETA, também alvo de fortes críticas no passado. “Quando ele começou a vigorar, o intercâmbio comercial aumentou e hoje quase não se vê protestos contra esse acordo”, recordou. Para Estrada, “o mais difícil já passou” e o essencial agora é que o pacto produza resultados concretos, capazes de lhe conferir legitimidade política.
No caso francês, a oposição do governo ao acordo não deve ser confundida com os problemas enfrentados pelo setor agrícola, segundo o especialista. “A dificuldade dos agricultores franceses está ligada principalmente à perda de competitividade da agricultura francesa, e não diretamente à...
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Intervenção dos EUA na Venezuela pode ser ensaio para conflito geopolítico mundial, diz especialista
1/9/2026
O cientista político Andrés Malamud, principal pesquisador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e professor em instituições na Argentina, Brasil, Espanha, Itália, México e Portugal, analisa a operação de Trump na Venezuela, o isolamento europeu diante dos EUA e o risco de um choque geopolítico mais amplo.
Adriana Moysés, da RFI
Na avaliação de Malamud, a intervenção dos EUA em Caracas foi “uma decapitação do regime” e pode anteceder um conflito “mais ao centro da geopolítica”, envolvendo a Groenlândia, que é um território autônomo do Reino da Dinamarca.
RFI – O governo Trump instalou um protetorado na Venezuela ao fazer a presidente interina Delcy Rodríguez aceitar que a receita do petróleo fique sob controle de Washington para compras de produtos americanos?
Andrés Malamud – É verdade. Não houve invasão; houve uma decapitação do regime, mantendo o aparelho. Delcy Rodríguez passou de vice a presidente e prometeu cumprir acordos, ao contrário de Maduro. Resta ver o papel dos militares (como os ministros do Interior, Diosdado Cabello, e das Forças Armadas, Vladimir Padrino). Por enquanto, o governo da Venezuela prometeu fazer o que os Estados Unidos pediram e, portanto, podemos dizer que passou de ditadura para protetorado, sem deixar de ser ditadura.
RFI – Ao focar no ganho econômico, Trump dá satisfação ao eleitorado MAGA (Make America Great Again), que rejeita operações externas?
Andrés Malamud – Parcialmente. A satisfação que ele dá é não ficar na Venezuela e fazer uma operação de extração encoberta por um procedimento judicial. O governo americano alega que foi um juiz de Nova York que pediu a captura de Maduro, como narcotraficante, e então os militares forneceram logística para um funcionário do FBI entrar no lugar onde Maduro estava refugiado, ler os seus direitos e capturá-lo. O MAGA tem sempre uma preocupação moral muito forte, que Trump não tem quando diz 'petróleo, petróleo, petróleo'. A prova que o movimento MAGA não ficou satisfeio é que seu líder, o vice-presidente JD Vance, não participou do planejamento da operação nem da conferência de imprensa posterior. Esta operação foi arquitetada pelo Marco Rubio, secretário de Estado, que não é MAGA, não é isolacionista. Rubio é um intervencionista neoconservador clássico, como o ex-presidente Bush. Pete Hegseth, secretário de Guerra, embora tenha perfil America First e relutante a intervir, admite operações contra inimigos como o Irã ou regimes comunistas. Para Marco Rubio, o próximo objetivo é uma mudança de regime em Cuba. Para Trump, o objetivo seria petróleo e interesses materiais. Na Venezuela, a desculpa de intervenção foi a droga, mas no fundo, o único fio condutor de todas estas tribos do governo americano é geopolítica: mandar a China, a Rússia e Cuba para fora da Venezuela.
RFI – Rubio disse que o regime de Cuba cairia sozinho. Pode-se descartar algum tipo de operação mais truculenta contra a ilha?
Andrés Malamud - Os Estados Unidos, sobretudo Trump, utilizam ambiguidade como instrumento. A mudança de regime de Cuba é um objetivo histórico dos EUA e também há dinheiro a fazer na ilha, como os americanos faziam antes da revolução comunista, com cassinos, praias e resorts. O regime de Cuba está muito fragilizado e sem o petróleo da Venezuela dificilmente conseguirá resistir.
RFI – Qual seria o próximo alvo?
Andrés Malamud – Provavelmente, o alvo seguinte é a Groenlândia. A ilha é território do Reino da Dinamarca; não integra a União Europeia, mas a Dinamarca pertence à OTAN. O que muitos veem como conflito periférico na Venezuela pode ser ensaio para algo maior e central na geopolítica: os Estados Unidos atacarem um aliado da OTAN.
RFI – Ao não impor uma relação de força contra Trump, os europeus contribuem para a implosão da OTAN?
Andrés Malamud - Os europeus estão em negação: dependem dos EUA para logística e tecnologia de defesa. Sem os EUA, não há defesa europeia. Agora, o problema é que precisam defender-se dos EUA. A...
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CES 2026: IA e robótica devem dominar o maior salão de tecnologia do mundo, diz consultor brasileiro
1/7/2026
A CES (Consumer Electronics Show), maior feira de tecnologia do mundo, realizada anualmente em Las Vegas, nos Estados Unidos, abre o calendário mundial do segmento desde 1967. No ano passado, a CES atraiu mais de 140 mil pessoas de 158 países. O consultor em tecnologia Henrique Ono explicou à RFI sua iniciativa de organizar uma missão de curadoria para ajudar a divulgar e facilitar o acesso às tecnologias de ponta por executivos brasileiros. Em 2026, o evento acontece de 6 a 9 de janeiro.
Henrique Ono destaca que a CES é uma feira pioneira no segmento de tecnologia.“As principais tecnologias foram lançadas na CES. O videocassete, o Discman, o videogame Atari — na época ainda uma startup — foram descobertos nessa feira. Em tempos mais recentes, a própria Microsoft lançou edições do sistema operacional Windows durante o evento. No ano passado, por exemplo, a Nvidia, cujo fundador e CEO é Jensen Huang, utilizou a feira para apresentar lançamentos da empresa ao público mundial”, explica.
Embora o Brasil esteja entre os 20 países que mais enviam visitantes, a participação brasileira ainda é considerada pequena, representando cerca de 0,5% do total, aproximadamente 450 pessoas dos mais de 141 mil participantes esperados para a edição de 2026.
“Eu acredito que atualmente a participação brasileira é pequena por desconhecimento dos C-levels e das diretorias, das pessoas que trabalham nas empresas. Basicamente, ela não é uma feira tão fomentada no Brasil”, lamenta Ono.
Segundo ele, essa desconexão faz com que as empresas brasileiras discutam temas tecnológicos com atraso. “Os assuntos ligados à tecnologia abordados nas empresas do Brasil são temas que já foram tratados na CES uma, duas ou três edições antes. Por isso, acho muito importante diminuir esse tempo entre o lançamento de uma tecnologia aqui em Las Vegas e sua chegada às discussões nas empresas brasileiras”, aponta.
Objetivo da missão brasileira na Consumer Electronics Show
Henrique Ono, que participa pela sexta vez da CES, explica que sua principal intenção é levar o conhecimento das novas tecnologias aos empresários no Brasil. “Eu pessoalmente tenho a iniciativa de conectar e levar esse conteúdo cada vez mais, para mostrar a importância da feira para os brasileiros”.
“A missão brasileira é, de fato, fazer uma curadoria. Porque é uma feira muito grande: são mais de 4.500 expositores em quatro dias. Então, a ideia é entender os objetivos individuais de cada pessoa e empresa para montar uma trilha personalizada e explorar as tecnologias mais relevantes”, destaca.
Atualmente, nenhuma empresa do Brasil integra a delegação de expositores da feira. Mas o consultor sugere soluções para estimular uma futura participação brasileira na CES por meio de parcerias com outros países. Segundo ele, países como França, Israel, Japão e Coreia do Sul alugam espaços na CES para levar expositores de suas delegações e integrar parcerias.
Inteligência Artificial e robótica dominam as tendências
Antes mesmo do primeiro dia da CES, que começou oficialmente na terça-feira (6), Henrique Ono avaliou o evento de prévia da feira, o CES Unveiled, realizado no domingo (4), que elenca algumas empresas que tiveram destaque com soluções ou produtos inovadores. “Eu pude observar basicamente todo mundo falando de Inteligência Artificial, mas também muitas aplicações de IA, principalmente na área de saúde”, diz o consultor.
“Muitas empresas de saúde, as health techs, estão criando soluções que vão desde softwares até dispositivos para combater a solidão, voltadas para pessoas da terceira idade, e para ajudar no monitoramento de saúde. Foi o spoiler que eu vi nesse evento antecipado”, destaca Ono.
Aplicações práticas e impacto no mercado brasileiro
Em seu trabalho como empreendedor, Henrique Ono sublinha a aplicação de tecnologias obtidas por ele em edições anteriores da CES em sua consultoria personalizada de viagens, a 'Viajante Pro', criada há dois anos. “Existem algumas tecnologias de IA que...
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'Se o Brasil tivesse pressionado Maduro, cenário poderia ser outro', diz especialista
1/6/2026
Para Gabriel Petrus, professor da universidade Sciences Po, em Paris, e especialista em relações internacionais e negociações globais, a crise aberta pela prisão de Nicolás Maduro nos Estados Unidos poderia ter sido evitada se o Brasil e outros países tivessem sido mais incisivos na cobrança por eleições livres na Venezuela. “Se o Brasil tivesse pressionado Maduro a sair do poder ou a fazer uma transição democrática, talvez não estivéssemos diante dessa situação”, disse em entrevista à RFI.
Petrus avalia que a captura de Nicolás Maduro por forças norte‑americanas em Caracas criou um precedente de difícil reversão. Para ele, a operação ultrapassou uma linha vermelha ao normalizar uma ação militar direta em um contexto que, há duas ou três décadas, teria provocado rejeição internacional muito mais ampla.
O professor associa esse movimento a uma mudança no ambiente global, marcado por maior tolerância a decisões unilaterais e pelo enfraquecimento de consensos multilaterais. “É difícil, depois da criação desse precedente militar, voltar atrás. A normalização que a gente vê hoje de ações que antes seriam consideradas absurdas indica uma tentativa de explorar essas oportunidades.”
Fragmentação global e cálculo estratégico
Na leitura de Petrus, a decisão do presidente Donald Trump deve ser entendida à luz de um mundo profundamente fragmentado, inclusive no interior de organizações tradicionais. Segundo ele, a erosão da coesão em instâncias como a União Europeia e a Otan cria um ambiente em que o uso da força ganha peso desproporcional nas relações internacionais.
“Vivemos um cenário de fragmentação muito grande. Nesse contexto, o jogo da força, infelizmente, pesa mais do que deveria”, afirmou, acrescentando que a intervenção na Venezuela se insere numa estratégia de afirmação geopolítica mais ampla.
A janela energética e o risco de concentração
Na avaliação de Petrus, a dimensão energética é central para entender a operação americana. A Venezuela é o país com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, ainda em grande parte não exploradas, sobretudo em razão da nacionalização do setor ao longo de mais de quatro décadas. Para o professor, uma eventual mudança de regime pode alterar profundamente as regras do jogo e reabrir o país à exploração por empresas estrangeiras.
“A Venezuela participou da fundação da Opep e nacionalizou o petróleo de forma soberana. Hoje, uma possível mudança de regime pode significar também uma mudança das regras, com a reabertura da exploração para empresas multinacionais”, afirmou.
Petrus pondera, no entanto, que não está claro se essa abertura resultaria em concorrência efetiva ou em uma concentração de poder econômico sob liderança americana. “A questão é saber se, de fato, outras empresas poderão concorrer — como a Petrobras, no Brasil, ou a Total, na França — ou se os Estados Unidos vão criar uma espécie de monopólio desses bens naturais”, disse.
Segundo ele, a dúvida está diretamente ligada à nova doutrina de política externa anunciada recentemente por Trump. “A política externa americana passou a privilegiar explicitamente os interesses estratégicos dos Estados Unidos, incluindo o domínio de recursos naturais considerados essenciais para a segurança nacional.”
Para Petrus, esse reposicionamento explica por que a Venezuela se tornou um alvo central. “Estamos falando de um país com um potencial de exploração de petróleo talvez único hoje, justamente porque esse recurso ficou nacionalizado por décadas. A mudança política ali tem implicações que vão muito além da democracia ou da geopolítica regional.”
No Congresso americano, parlamentares democratas e republicanos exigem explicações sobre a legalidade da operação, os custos envolvidos e, principalmente, sobre o que os Estados Unidos pretendem fazer com a Venezuela a partir de agora.
Multilateralismo sob pressão e o 'dia seguinte'
Petrus define o momento atual como um “momento de perigo” para a ordem internacional, não apenas pela...
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‘Orixá’: franco-brasileiro cria fusão inovadora de sons e canta símbolos das favelas e do candomblé
1/5/2026
Criado oficialmente há dez anos pelo franco-brasileiro Adrien de Araújo, o projeto Drama On The Corner (D.O.T.C.) nasceu de uma paixão compartilhada com seu amigo de infância Gérald Portocallis: os dois queriam tocar funk, soul e R&B e fazer “as pessoas dançarem”. Depois de uma pausa de anos, o duo lançou recentemente seu segundo EP, “Orixá”, que contém cinco faixas originais dançantes e repletas de referências internacionais, revisitadas por uma produção moderna conectada às origens da família paterna de Adrien.
Adrien de Araújo demonstra em “Orixá” como sua herança familiar, composta por raízes indígenas e músicos eruditos, impacta sua produção musical. “Essas influências fazem parte da minha história e da história da minha família. Minhas influências são, por exemplo, Banda Black Rio, Milton Nascimento, Jorge Ben e Emílio Santiago. O Emílio Santiago era um grande amigo do meu pai e meu padrinho musical. Eu queria botar na minha música essas influências do Brasil e misturar com outras influências europeias e africanas. Toda essa história começou com meu avô, meu pai e depois a minha formação musical. Foi um retorno às minhas raízes brasileiras”, conta.
Filho do falecido pianista Walter Araújo, que fez carreira na França, Adrien também é neto de um maestro, José da Providência Araújo. Seu avô nasceu em uma aldeia Guajajara, no Maranhão, onde viveu até os 4 anos, antes de ser enviado para um internato, onde aprendeu português e estudou música — saxofone, clarinete, piano, violão — até se tornar maestro.
Apesar do ritmo moderno e da pegada eletrônica, segundo Adrien, sua produção é altamente influenciada pela música erudita. “Para mim, a música clássica foi quase toda a minha vida. Estudei 15 anos no Conservatório de Paris com a pianista francesa Florence Delaage. Toquei muito Chopin e Rachmaninoff, essas influências mais românticas da música clássica. Você pode ouvir isso nas harmonias desse EP”, detalha.
Na descrição oficial do duo, as inspirações originais vão da French Touch (Daft Punk, Cassius, Saint-Germain) à House de Detroit (Moodymann, Andrés, Theo Parrish). No entanto, Adrien de Araújo define que o som que produz é uma mistura de toda a carga cultural e familiar dele com a de Gérald Portocallis, que estudou bateria no sul da França: “O Gérald vem mais da House Music e do Jazz. Eu trago a música brasileira, a clássica, a francesa, o Funk e o Soul. O estilo do Drama On The Corner seria um Neo Soul, Jazz Fusion e Afrobeat, além de Samba Funk”, explica.
Participações musicais no EP “Orixá”
Adrien de Araújo afirma que, em seu processo de composição, já imaginava as vozes que iriam entrar nas melodias, como no caso da participação da húngara Lilla Molnár: “Fui a Budapeste gravar esta cantora húngara a faixa ‘Smooth Lips’. Também trabalhamos com Ladybird, uma das grandes vozes da House Music mundial. E com o cantor K.O.G, que tem dupla nacionalidade da Inglaterra e de Gana”.
“Combinar várias culturas, várias inspirações, é música do jeito que tem que ser. Música não é só para pessoas de um país, é para ser ouvida no mundo inteiro”, afirma Adrien de Araújo.
Em seu discurso, o músico deixa claro que a sonoridade do Drama On The Corner funciona como uma criação gastronômica: a fusão técnica rigorosa da música erudita em seu preparo, porém com o tempero rítmico brasileiro e africano, resultando em um prato feito para ser apreciado em qualquer lugar do mundo, sem fronteiras.
Das favelas à Europa: música sem fronteiras
Nos estúdios da RFI, Adrien detalha a importância de cantar na língua de sua família paterna, o português, e de homenagear a religiosidade afro-brasileira como forma de unificação cultural em tempos de intolerância. Ele brinca com seu sotaque francês ao cantar em português, mas enfatiza que, apesar de ser “50% francês e 50% brasileiro”, há dias em que o sangue brasileiro fala mais alto. “Eu queria cantar em português, como franco-brasileiro. Foi muito importante para mim cantar em português”, diz o...
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Escritora brasileira Fernanda Bittar une culturas e transita entre a literatura adulta e a infantojuvenil
1/2/2026
A escritora brasileira Fernanda Bittar, residente em Paris há cerca de duas décadas, já contabiliza em sua carreira quatro livros voltados ao público infantojuvenil e dois livros de contos. Recentemente presente no 2º Salão do Livro Lusófono em Paris, a autora agora se prepara para sua primeira participação na Feira do Livro Infantil de Bolonha, em abril.
Luiza Ramos, da RFI em Paris
Fernanda Bittar transita entre os universos dos contos adultos e infantojuvenis desde que começou a escrever há mais de 15 anos. Como suas histórias se baseiam em situações do cotidiano, a vivência multilíngue influencia diretamente seus trabalhos. Um exemplo é o livro ilustrado trilíngue “O País do Coração”, que surgiu a partir de histórias de infância coletadas de pessoas de diferentes nacionalidades, inspirado na ideia central da obra: a universalidade da infância.
“A primeira história desse livro, que é a história do Brasil, é uma história do meu pai José, que sempre me falou dessa história que marcou a vida dele. Todo mundo tem uma história que marcou a sua infância. Então, eu comecei a entrevistar pessoas. Eu entrevistei mais de 40 pessoas para conseguir chegar nessas 18 histórias do livro”, conta a escritora.
Em “O País do Coração”, Fernanda busca transmitir sua visão de que crianças de todas as culturas compartilham os mesmos desejos e anseios: “Quando a gente é criança, a gente não tem ideia do que acontece com uma criança em outro país. Você não tem ideia do que acontece com uma criança no Japão. Através desse livro a gente consegue fazer essa ligação de que a infância é a mesma em todos os lugares, que nós somos os mesmos, nós queremos as mesmas coisas, nós pensamos do mesmo jeito. As crianças esperam as mesmas coisas e enfrentam desafios parecidos”.
A autora fez questão de escrever cada história em português, inglês e francês, justamente para tornar mais universal a ideia que quis transmitir. Devido ao caráter multilíngue, o livro acabou sendo adotado por uma escola como parte do conteúdo pedagógico.
Contos e próximos projetos
Fernanda também discute sua transição para a escrita de contos adultos, iniciada com “Contos do Avesso” e continuada no mais recente “Contos do Imprevisto”, sem deixar de lado a paixão pelos livros infantojuvenis, como em seu último lançamento, “Ramizul e Violeta”, cujo objetivo é mostrar às crianças a magia da literatura.
Ela revela que, ao escrever contos, “abriu uma portinha” sem precedentes “que nunca mais conseguiu fechar”, e atualmente projeta novos contos para publicação, ainda sem data definida.
“Eu comecei escrevendo histórias infantis. Em 2012 apareceu um concurso e eu resolvi participar, só que tinha que escrever um conto inspirado na obra de Nelson Rodrigues, porque era o centenário do autor. Eu queria participar, mas nunca tinha escrito nada para adulto (...) Para minha felicidade e alegria, o primeiro conto que escrevi, ‘O casamento’, foi um dos premiados”, relata. O texto está presente no livro “Contos do Avesso”, publicado em 2020 pela Editora Paratexto.
Livros em Língua Portuguesa na Europa
Apesar de ser poliglota, tendo trabalhado como comissária de bordo internacional por cinco anos antes de estudar literatura, para Bittar a língua mestra de trabalho permanece sendo o português. “Eu não consigo escrever em outra língua que não seja o português. Tudo o que é feito depois são traduções”, explica.
No 2° Salão do Livro Lusófono, evento que promove a literatura em Língua Portuguesa na Europa e aconteceu no fim de novembro na Maison du Portugal, dentro da Cidade Universitária de Paris, Fernanda Bittar pôde apresentar seus livros ao lado de outros escritores lusófonos de várias nacionalidades. “Sempre é muito interessante encontrar outros autores, encontrar o público, ver relatos de vários lugares, de várias partes. Vieram pessoas do Brasil, de Portugal e autores africanos. A ideia da União Europeia de Escritores de Língua Portuguesa (UEELP) é principalmente para reagrupar os autores que...
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Designer brasileira desenvolve jóias sustentáveis reconhecidas por selo da prefeitura de Paris
12/29/2025
A arquiteta, urbanista e designer brasileira Ingrid de Rio Campo vive na França há 35 anos. Depois de atuar em grandes projetos urbanos e certificações ambientais, ela encontrou na pandemia um momento de reinvenção: passou a criar joias e peças artesanais com materiais sustentáveis. Suas criações acabam de receber o selo “Fabriqué à Paris”.
Este selo atribuído pela prefeitura de Paris é destinado a produtos fabricados na capital francesa, com o objetivo de valorizar o savoir-faire local e promover práticas éticas e sustentáveis.
“Eu comecei a desenhar joias em 2015 e, a partir de 2019-2020, passei a fabricar eu mesma”, conta Ingrid. Inicialmente, suas peças exploravam metais e pedras preciosas, mas o contexto pós-pandemia trouxe novas reflexões. “Eu mudei um pouco de estratégia e comecei a usar materiais mais duráveis, como madeira de lei e produtos têxteis. A minha ideia é propor joias grandes, generosas, para empoderar quem as usa – principalmente as mulheres.”
Essa busca pelo empoderamento se conecta a outro eixo do trabalho da designer: a relação com a natureza. “É muito confortável usar madeira. Ela tem uma temperatura agradável. Minha ideia é nos conectar com a natureza e nos empoderar com a força dela”, explica.
Entre culturas e escalas: do design à escrita
Além das joias, Ingrid também cria peças de cerâmica, influenciada por suas origens familiares. “Tenho memórias da infância no interior de São Paulo, onde cresci e minha família japonesa se instalou. Eu tenho lembranças de algumas peças de cerâmica, de alguns chawan [tigela de forma aberta], na casa dos meus avós e dos meus tios.”
Essa herança cultural e de conexão com a terra se traduz em outras técnicas tradicionais que Ingrid utiliza, entre elas o kurinoki, que consiste em entalhar a terra com uma faca ou um objeto cortante, e o kintsugi, que é a arte de restaurar alguns objetos, como peças quebradas que são coladas com folhas de ouro. “Meu trabalho é orgânico. Tento introduzir formas arredondadas porque estamos banhados em um universo de linhas retas e minha ideia é introduzir mais curvas.”
Ingrid costuma dizer que “a geometria está em tudo e tudo é design”. Segundo ela, isso lhe permite navegar de uma grande escala até o objeto. “Essa liberdade é essencial”, afirma.
Paralelamente à criação artística, ela atua como auditora de modelos de alta qualidade ambiental na França, certificando projetos arquitetônicos e urbanos. “Sou exigente com qualidade. Aqui, essa questão ambiental é bem regulamentada, com selos específicos”, observa. No Brasil, existe a certificação AQUA, ligada à USP, que nasceu da francesa HQE – acrônimo para alta qualidade ambiental em francês.
Liberação da criatividade
Com uma vida marcada pela diversidade de experiências, Ingrid também encontrou espaço para a escrita. “Uso há anos um método de liberação da criatividade da Julia Cameron. Entre 2024 e 2025, escrevi crônicas sobre a vida em Paris, sobre como é viver na cidade no dia a dia. Vou traduzir para o português e ilustrar os textos. Quero abrir a cortina do que acontece atrás dos monumentos e do turismo em Paris.”
A trajetória revela uma profissional que transita entre culturas, linguagens e escalas, sempre guiada pelo conceito de design e pela busca de sustentabilidade. De auditorias ambientais a joias que conectam à natureza, Ingrid de Rio Campo constrói uma narrativa onde estética e ética caminham juntas.
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Filósofa e autora brasileira Márcia Schuback ganha prêmio internacional por engajamento contra o fascismo
12/22/2025
A filósofa e autora Márcia Sá Cavalcante Schuback, professora de filosofia na Universidade de Södertörn, na Suécia, ganhou o Prêmio Hermann Kesten 2025 por seu engajamento contra as novas formas de fascismo. A distinção, concedida pelo PEN Centro da Alemanha, já foi atribuída anteriormente ao prêmio Nobel de Literatura Günter Grass e à jornalista russa Anna Politkovskaya. A filósofa brasileira também está lançando na França seu livro sobre a filosofia na literatura de Clarice Lispector.
Ana Carolina Peliz, da RFI em Paris
O PEN destacou que a obra de Márcia Schuback “contribui para a cultura democrática e para o debate intercultural”. O prêmio leva o nome de Hermann Kesten, em homenagem ao escritor judeu-alemão que se exilou quando Hitler ascendeu ao poder na Alemanha.
“Receber esse prêmio foi uma honra muito grande, porque ele já foi concedido a autores como Günter Grass, Harold Pinter e ativistas importantes, como Anna Politkovskaya. E foi a primeira vez que a filosofia recebeu esse prêmio. Foi uma surpresa para mim. Eu não sabia que a filosofia podia receber esse tipo de atenção”, disse à RFI.
Márcia Sá Cavalcante Schuback foi premiada por seus trabalhos sobre o fascismo da ambiguidade, a filosofia do exílio e a temporalidade do exílio. A cerimônia ocorreu em 13 de novembro, na cidade de Darmstadt, na Alemanha.
Pensamento de Clarice Lispector
Além do reconhecimento internacional, a filósofa publica este mês na França, pela editora Vrin, seu livro “Derrière la pensée, la philosophie de Clarice Lispector” ("Atrás do Pensamento: A filosofia de Clarice Lispector"), com tradução do filósofo francês Renaud Barbaras. A obra foi publicada no Brasil em 2022 pela Bazar do Tempo.
“A Clarice é realmente uma autora que toca o mundo inteiro. Acho que é porque ela fala do ponto de vista dessa experiência tremenda que é ser tocado pela realidade, pelo mundo, pelo advento da palavra”, explica.
Quando lemos Clarice, fazemos a experiência de ler frases tão impressionantes que é como se elas dissessem tudo: todo o passado, todo o futuro, todo o real se fazendo num instante absolutamente arrebatador. Ela nos toca diretamente.
Márcia também destaca que a autora brasileira, que teve seus livros traduzidos para 32 idiomas e publicados em 40 países, abordou inúmeros temas e questões existenciais, inclusive na literatura infantil.
“Ela é uma escritora da multivariedade, do arco-íris da existência, inclusive do seu lado agridoce, claro-escuro, tocando uma profundidade grande da vida”, sublinha.
Márcia Cavalcante Schuback explica que o interesse de filósofos por Clarice Lispector vem do fato de que a autora trata de grandes temas filosóficos, “como a questão da liberdade, da necessidade, do determinismo, da vida, da morte, da existência e da origem, da linguagem, da relação entre pensamento e linguagem”.
“Eu fiz uma leitura da Clarice como uma pensadora única. Não mais do ser, não mais da realidade, não mais da existência do mundo, não mais de uma subjetividade encontrando um mundo devastado ou por se construir. Mas uma grande pensadora do ‘sendo em ato’, ou seja, uma pensadora de um sentido de presença que não se confunde com as nossas categorias de ser ou existência. A Clarice é!”, diz.
Para ela, Clarice Lispector tem muito a ensinar sobre o mundo. “Vivemos hoje em um mundo de fake news, manipulação e desinformação, excesso de uso e abuso das palavras, da linguagem, dos sentidos, onde tudo perde o sentido, como se o sentido perdesse o sentido de tão extremo que é”, analisa a filósofa.
“Então, em vez de usar conceitos prontos ou se deixar manipular por essa circulação alucinada das palavras, que vira uma insensatez, como se tivéssemos que repreender o próprio sentido da linguagem, Clarice é uma escritora pensadora de ouvir a palavra. É como se ela escrevesse o tempo todo. Com Clarice, aprendemos o que é ter a palavra na ponta da língua, o que é o gaguejar, o não conseguir dizer. Tudo isso como uma experiência fundamental da linguagem”,...
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'Nas Entrelinhas': o guia de Maria Marques indispensável para tradutores e aficionados pelo francês
12/15/2025
Imagine chegar à França nos anos 80, sem internet, sem celular e sem brasileiros por perto. Foi assim que Maria Marques aprendeu francês: mergulhada na vida cotidiana da Córsega, ilha mediterrânea de paisagens deslumbrantes, onde “ou eu falava francês, ou eu falava francês”, como ela resume. Quatro décadas depois, a carioca lançou "Nas Entrelinhas", um guia prático de tradução do francês para o português, pela editora Longarina.
Formada em Língua e Civilização Inglesa e Francesa pela Sorbonne Nouvelle, Maria atua como tradutora há 35 anos, além de ter sido durante vários anos professora do mestrado de tradução da Escola Superior de Intérpretes e Tradutores de Paris (École Supérieure d'Interprètes et de Traducteurs).
O livro reúne 1001 verbetes que mostram como uma mesma palavra pode assumir sentidos inesperados conforme o contexto em que é utilizada. “Do francês para o português existem dicionários unilíngues, bilíngues, mas eles não são suficientemente extensos e profundos para as necessidades do tradutor”, observa. “Eles dão uma definição, mas não explicam tudo”, completa.
A ideia do guia nasceu de uma prática diária: anotar as palavras que a faziam “tropeçar” no momento de escolher a melhor tradução. “Tropeçar é parar, pesquisar, refletir, perguntar para colegas”, conta. Ao longo de 15 anos, Maria colecionou expressões que desafiam tradutores e selecionou aquelas mais frequentes ou mais traiçoeiras. “Na pandemia, percebi que já tinha quase mil verbetes. Com 536 páginas, ficou um guia robusto, mas ainda manejável.”
Surpresas
Entre os exemplos, há surpresas para quem pensa conhecer bem o francês. Ménage, por exemplo, ocupa duas páginas. “Os brasileiros conhecem pelo ménage à trois, mas ménage também é lar, casal, família... e faxina!”, brinca. Essa multiplicidade revela, segundo ela, “a capacidade da língua francesa de criar imagens muito ricas”, algo que fascina a tradutora até hoje.
Maria também coleciona histórias curiosas do ensino. “Uma estudante traduziu a expressão à vol d’oiseau como ‘no voo do pássaro’”, lembra, rindo. “Na verdade, significa ‘em linha reta’. Esse exemplo foi direto para o trono!” Casos assim reforçam a importância do contexto e da sensibilidade cultural na tradução – algo que nenhum dicionário resolve sozinho.
'Ouvir a música da língua'
Falando em cultura, Maria destaca um capítulo essencial da sua trajetória: os quatro anos vividos na Córsega, durante a década de 1980. “Não existia internet, nem celular, nem WhatsApp. Então eu lia jornais, revistas, livros, e ficava teimosamente até entender a engrenagem da frase”, conta. Essa imersão, para ela, foi decisiva. “A formação acadêmica é importante, mas não basta. É preciso viver a cultura, ouvir a música da língua.”
Essa música, aliás, é tão forte que Maria confessa: “Se um dia me disserem: você vai traduzir para português de Portugal ou para francês? Eu prefiro francês. Porque eu tenho a música do francês nos meus ouvidos.” Uma declaração que resume bem a paixão de quem fez da tradução não apenas um ofício, mas uma forma de vida.
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