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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A...
Location:
Paris, France
Networks:
RFI
Description:
Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.
Language:
Portuguese
Episodes
De Cuiabá aos festivais internacionais: o cineasta Bruno Bini revela o Brasil além do eixo Rio–São Paulo
4/16/2026
Fora do eixo tradicional Rio–São Paulo, o cinema brasileiro contemporâneo vem encontrando novas vozes, territórios e narrativas. Um dos nomes que simbolizam esse movimento é o cineasta Bruno Bini, diretor, roteirista e produtor nascido em Cuiabá, com mais de 20 anos de trajetória no audiovisual. Seu mais recente longa-metragem, "Cinco Tipos de Medo", vem consolidando essa projeção ao conquistar o Festival de Cinema de Gramado, onde recebeu os principais prêmios da edição de 2025, e ao circular por importantes festivais internacionais, incluindo o 28º Festival do Cinema Brasileiro de Paris.
Maria Paula Carvalho, da RFI
Lançado comercialmente no Brasil após a consagração em Gramado, o filme marca um momento decisivo na carreira de Bini e também no reconhecimento do cinema produzido no Centro-Oeste. "Cinco Tipos de Medo" foi o primeiro longa-metragem de ficção de Mato Grosso selecionado para a competição oficial do festival gaúcho, feito que, para o diretor, já representava uma vitória antes mesmo da premiação.
“A gente já estava muito feliz de estar lá e de fazer parte desse festival, que é uma das maiores vitrines do cinema brasileiro”, afirma Bini. A sessão, segundo ele, foi marcada por uma reação rara do público: aplausos de pé por vários minutos. “Depois, com a premiação, a gente se sentiu muito honrado por finalmente estar consolidando a qualidade do cinema feito em Mato Grosso”, comemora.
Bruno Bini construiu sua carreira fora dos grandes polos de produção audiovisual. Longe de representar um obstáculo, essa origem se converteu em matéria-prima criativa. Desde seus primeiros filmes, o diretor percebeu o interesse do público por narrativas ambientadas em contextos pouco explorados pelo cinema brasileiro.
“Havia um interesse grande em histórias que se passavam em contextos pouco conhecidos do grande público”, explica. Para ele, contar histórias enraizadas no universo cuiabano e mato-grossense sempre foi um gesto natural. “Eu sou tão inserido nesse contexto que era o único jeito de contar essas histórias”, afirma. O diretor se diz surpreso de ver que a trama passada na periferia de Cuiabá, no bairro Jardim Novo Colorado, tem dialogado com espectadores de culturas e países distintos.
Um quebra-cabeça narrativo
A estrutura do filme é um dos aspectos que mais chamam atenção da crítica e do público. A narrativa se constrói a partir de cinco personagens, cujas histórias se entrelaçam de maneira fragmentada, exigindo atenção ativa do espectador. Para Bini, esse formato não é apenas uma escolha formal, mas parte essencial da proposta do filme.
“Eu considero uma forma inteligente de engajar o público”, diz. “O filme carrega essa característica de quebra-cabeça, em que pouco a pouco as informações vão sendo apresentadas.” Segundo o diretor, esse tipo de construção faz com que o espectador deixe de ser passivo. “Ele se sente parte da construção do filme.”
A fragmentação também dialoga com o perfil dos personagens, marcados dramas, contradições e intenções nem sempre explícitas. O longa acompanha cinco pessoas que têm suas vidas entrelaçadas: Murilo, jovem músico em luto; Marlene, enfermeira presa a um relacionamento abusivo; Luciana, policial movida pela vingança; e Ivan, advogado de intenções ambíguas. “São personagens que escondem uma coisa ou outra. Achei que essa não explicitação combinava com a estrutura narrativa”, explica.
O filme levou quatro Kikitos: Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Montagem, todos para Bini, além de Melhor Ator Coadjuvante para o rapper e ator Xamã, que atua ao lado de Bella Campos.
Com personagens tomados por culpa, ambivalência e escolhas difíceis, "Cinco Tipos de Medo" não evita a violência nem a tensão. Ainda assim, o diretor rejeita a ideia de um cinema puramente sombrio ou desesperançoso. Para ele, a dureza é inseparável da realidade brasileira, mas não elimina a possibilidade de afeto e redenção.
“O Brasil é um país de desigualdades, onde a população enfrenta enormes dificuldades,...
Duración:00:12:03
'Precisamos Falar' coloca famílias diante de um dilema moral: proteger os filhos ou assumir a verdade
4/15/2026
Exibido no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, o longa apresentado por Emílio de Mello e Leonardo Monteiro de Barros lança um olhar incômodo sobre privilégio, impunidade e responsabilidade moral em uma sociedade polarizada.
Proteger os próprios filhos ou dizer a verdade à Justiça, custe o que custar. É a partir desse dilema ético fundamental que se constrói “Precisamos Falar”, longa-metragem brasileiro que tem percorrido festivais internacionais antes de sua estreia no Brasil, prevista apenas para o segundo semestre de 2026. Dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, o filme acompanha dois casais da elite urbana cujas certezas morais entram em colapso quando descobrem que seus filhos adolescentes participaram juntos da agressão a uma mulher em situação de rua – um ataque que resulta em morte.
Os jovens envolvidos no crime são filhos de dois irmãos. Um deles é um político em ascensão; o outro, um professor universitário em crise pessoal e profissional. A revelação da agressão fatal transforma um encontro familiar em um embate ético profundo, no qual entram em confronto não apenas visões distintas de mundo, mas também a relação entre poder, responsabilidade, impunidade e consciência moral.
Quando o poder e a família entram em conflito
“O que eu acho que é interessante no filme é que a questão não é o crime, é como a sociedade lida com o crime. Essas famílias, na verdade, são um espelho de uma sociedade”, disse à RFI o ator Emílio de Mello, um dos protagonistas do longa, que esteve em Paris ao lado do produtor Leonardo Monteiro de Barros, sócio da Conspiração Filmes.
“Não importa se o agressor é seu filho, você tem que agir conforme manda a lei, de acordo com a moral, com a ética. Eu acho que o filme discute isso de uma maneira muito boa, muito bonita”, destaca Emílio de Mello.
Ele interpreta Celso, um político em plena campanha ao governo do Rio de Janeiro, cuja ascensão nas pesquisas coincide com a revelação do violento ataque cometido por seu filho e pelo primo. “O filme é uma gangorra nesse sentido. Ele começa com ele passando à frente nas pesquisas para ganhar o governo do Rio. E o crime acontece nessa noite”, conta o ator. A partir daí, estabelece‑se um embate entre dois núcleos familiares em posições opostas: de um lado, Celso e sua mulher, no auge social e político; de outro, o irmão de Celso, professor afastado da universidade, mergulhado em uma crise existencial e lidando com a depressão.
Pai de dois filhos, o ator e diretor de teatro paulista admite que o conflito extrapola a ficção. “Só de me imaginar numa situação como essa, já me dá um certo arrepio”, confessa. Para ele, o filme toca em algo essencial.
“O futuro do nosso mundo são os nossos filhos. A maneira como a gente lida com a nossa família interfere diretamente na construção de uma nova sociedade.”
Polarização inviabiliza reflexão
Esse debate, segundo o ator, ganha ainda mais urgência em um mundo atravessado pela polarização. “A gente vive uma polarização pelo mundo inteiro. E a gente não pode falar disso. Então o cinema abre espaço para essa discussão”, afirma, citando experiências recentes vividas também fora do Brasil.
A escolha da vítima, uma mulher em situação de rua, estrangeira, acrescenta camadas decisivas ao conflito.
“É muito importante ser uma mulher. Na cadeia da importância social, ela realmente é relegada à última categoria. E acontece com esta pessoa”, diz Emílio. “Ela ainda é uma estrangeira. Quer dizer, isso tudo está nas entrelinhas do filme.”
Leonardo Barros complementa que essa alteração em relação ao livro original foi uma decisão consciente do roteiro. “A ideia de ser uma moradora de rua e uma refugiada foi uma ideia do roteirista Sérgio Goldenberg, porque no livro original isso era um pouquinho diferente”, explica. Para o produtor, essa escolha reforça a dimensão ética da narrativa e a discussão sobre impunidade.
Um dilema universal, com ecos locais
Leonardo lembra ainda que “Precisamos Falar” é uma adaptação do...
Duración:00:11:11
'É gratificante demais': Alaíde Costa canta em Paris aos 90 anos
4/14/2026
Paris recebe esta semana uma artista excepcional. Aos 90 anos, Alaíde Costa, uma das grandes vozes fundadoras da bossa nova, sobe ao palco do Teatro da Aliança Francesa nesta quarta‑feira (15), em Paris, para um concerto histórico. Ela canta para o público francês e também para os brasileiros que vivem na cidade, um reencontro que acontece num momento especial, de reconhecimento amplo de sua trajetória.
“Eu estou muito feliz por estar aqui”, disse Alaíde em entrevista à RFI, com a timidez que nunca abandonou fora do palco. “E poder falar um pouquinho da minha vida”, completa, quase como quem pede licença para ocupar o centro da cena.
A vinda à capital francesa se dá também por ocasião da exibição do filme de animação “A Noite de Alaíde”, da diretora baiana Liliane Mutti, apresentado no encerramento do Festival de Cinema Brasileiro de Paris. O documentário revela uma artista que esteve presente nos primórdios da bossa nova, embora, por muito tempo, tenha ficado à margem da chamada história oficial do movimento.
Cantar em Paris acrescenta algo à sua trajetória? A resposta não vem em análise fria, mas em sentimento. “Traduzir isso em palavras é complicado”, confessa. “É um sentimento que eu não sei explicar, mas é gratificante demais. Depois de 70 anos de carreira, agora, no finalzinho da vida, vêm os convites e o reconhecimento.”
Nos anos 1950, antes de a bossa nova ter nome
Ainda nos anos 1950, quando a bossa nova começava a tomar forma, Alaíde Costa já ajudava a moldar um modo moderno de cantar no Brasil, mais contido, mais íntimo, influenciado pelo jazz e pela canção norte‑americana.
“Eu sempre quis cantar músicas que não tinham nada a ver com o que acontecia no momento”, contou à RFI. Ela ouvia Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Chet Baker e outros nomes do jazz que dialogavam diretamente com a estética que se desenhava no Rio de Janeiro.
Foi nessa época que conheceu o pianista e compositor Johnny Alf. “Eu conheci o Johnny aos 16 anos. Na minha cabeça, a música dele era feita para eu cantar.” Ainda assim, seu nome, assim como o de Alf, ficou fora do panteão consagrado da bossa nova. Uma exclusão silenciosa, marcada por preconceito racial e estético, da qual Alaíde só tomou plena consciência muitos anos depois, ao ler o livro “Chega de Saudade – A História e as Histórias da Bossa Nova”, de Ruy Castro, publicado em 1990.
“Foi ali que eu percebi por que eu e o Johnny (Alf) ficamos de fora”, diz. “Na época, eu não percebia que aquilo era preconceito. Não com o canto, nem com a voz, mas com a cor da pele. A ficha demorou a cair.”
Reconhecimento tardio e a emoção preservada
Houve tristeza. “É triste, né?” Mas não ressentimento. Alaíde seguiu cantando, gravando, resistindo. Décadas depois, a reparação começou a acontecer: o retorno aos grandes palcos, a ovação no Carnegie Hall, o reencontro com o público internacional.
“Eu agradeço muito a Deus por ter conservado a minha voz”, afirma. Em casa, ela não canta. “Não canto, não.” A voz é guardada para o momento essencial: o palco. “Quando eu termino de cantar e vêm aqueles aplausos sinceros, é muito bom. Fico muito feliz.”
Vieram também as parcerias com músicos mais jovens, em discos como “O que meus calos dizem sobre mim” e “O tempo agora quer voar”. Ao falar das colaborações com Emicida, Marcus Preto e outros, Alaíde demonstra confiança e serenidade. “Eu pensei: ele é muito inteligente. Não vai me propor nada que eu não faça.” E não propuseram. “Nada saiu fora do que eu faço.”
O projeto mais simbólico dessa fase madura é o álbum “Uma estrela para Dalva”, homenagem à cantora Dalva de Oliveira, sua grande musa desde a adolescência. “Eu pensava nesse disco há 50 anos”, revela. “E finalmente chegou a hora.” Dalva era diferente dela. “A extensão de voz dela é inigualável. A minha vozinha é assim…”, diz, com modéstia. “Mas a emoção, acho que aprendi bastante com ela.”
Em Paris, Alaíde se apresenta acompanhada do pianista Philippe Powell, filho de Baden Powell,...
Duración:00:13:20
“Malês”: em filme, Antônio Pitanga leva ao mundo a revolta negra que o Brasil ocultou
4/13/2026
A exibição integral do filme “Malês” no 28º Festival de Cinema Brasileiro de Paris, diante de uma sala com 400 lugares lotados, marcou mais do que a estreia francesa do novo filme de Antônio Pitanga. Tornou visível, mais uma vez, a força de um projeto que atravessa décadas, continentes e camadas de memória. Em entrevista à RFI, o ator e diretor de 86 anos falou do levante de africanos muçulmanos escravizados ocorrido em Salvador em 1835, mas também falou de si, do Brasil e de um passado que insiste em não caber nos livros escolares.
“Malês” retoma um episódio central e ainda pouco conhecido da história brasileira: o levante dos malês, organizado por africanos muçulmanos letrados, em sua maioria falantes de árabe, sequestrados no norte e no oeste da África e escravizados na Bahia. Homens e mulheres que, nas fazendas e nos engenhos vizinhos, começaram a se reconhecer pela oralidade, pela escrita, pela fé comum e pela convicção de que era possível resistir.
A decisão de transformar esse levante em filme consolidou‑se, como contou Antônio Pitanga em Paris, com a leitura de “Rebelião escrava no Brasil”, de João José Reis, obra que lhe deu base histórica e impulso definitivo para levar “Malês” às telas.
No filme, Pitanga reconstrói esse processo de reconhecimento lento e subterrâneo. Antes do levante, há um sonho: a construção de uma mesquita na fazenda de um colonizador europeu, um espaço de oração, encontro e sustentação espiritual diante da brutalidade cotidiana da escravidão. A repressão portuguesa destrói esse projeto e, ao tentar apagar a possibilidade de união, acaba acelerando o caminho para a insurreição sangrenta. O levante de 1835, o maior do século 19 no Brasil, nasce dessa fratura.
Pitanga insiste: a história dos malês não é “história do negro”, mas história do Brasil. E justamente por isso foi silenciada. “Ela não está no ensino fundamental, não está nas universidades, não está na formação do brasileiro”, diz. Na Bahia, primeiro grande entreposto de escravizados do país, ao lado de Pernambuco, essa memória sempre circulou pela oralidade. E é dessa circulação popular que o diretor parte.
“Quando chego a entender que é hora de fazer 'Malês', ele não caiu de repente, de paraquedas. É uma infância, é uma vivência, é uma história que acontece na Bahia, no Brasil – e a Bahia se lembra de tantas histórias que o Brasil não conhece, já que foi a primeira capital do país.”
Cinema e resistência
Quando afirma que o projeto levou 29 anos para se concretizar, Pitanga não fala apenas de dificuldades de produção. Ele fala de uma constante histórica do cinema brasileiro: a inexistência de uma política de Estado para a cultura. “Sai governo, entra governo, e seguimos sempre correndo de pires na mão.” Desde “Bahia de Todos os Santos”, de Trigueirinho Neto, passando por “Barravento”, de Glauber Rocha, sua trajetória se confunde com a formação do Cinema Novo, um cinema que pensava o país a partir de suas fraturas sociais. “Malês” é herdeiro direto dessa tradição.
Mas o filme se ancora ainda mais fundo. Ao falar do século 19, Pitanga traz o século 21 para o centro da discussão. Para ele, o levante dos malês permite revisitar não apenas a escravidão, mas também a independência, a abolição, a República, a industrialização. O ator questiona, inclusive, a narrativa oficial da Independência.
“7 de setembro foi um acordo. Independência de verdade aconteceu em 2 de julho de 1823, quando os portugueses são expulsos da Bahia.”
Esse deslocamento de perspectiva explica por que “Malês” tem encontrado forte ressonância fora do Brasil. O filme já foi apresentado para debate nas universidades americanas de Princeton, Universidade da Pensilvânia e Harvard, além de ter sido exibido em uma sessão na Columbia University, durante um festival da diáspora africana. No exterior, sobretudo, ele quebra uma leitura simplificada segundo a qual apenas o Haiti teria produzido uma revolução negra organizada nas Américas.
Colonialismo e pertencimento
Na...
Duración:00:16:26
'Rei da Noite’ traz mito carioca de Ricardo Amaral a Paris em vaudeville sobre poder e espetáculo
4/9/2026
Exibido no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, Rei da Noite chega à capital francesa como um dos destaques da programação. O filme revisita a trajetória de Ricardo Amaral, figura central da noite carioca e internacional, transformando sua história em um retrato de época entre memória e invenção. Dirigido por Pedro Dumans, Lucas Weglinski e Cassu, o documentário atravessa décadas em que o empresário ajudou a moldar o Rio de Janeiro e projetou sua vida noturna para cidades como Paris e Nova York.
Exibido com destaque no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, Rei da Noite chega à capital francesa como um retrato da cultura noturna brasileira em diálogo direto com o circuito internacional que marcou a trajetória de Ricardo Amaral. O documentário transforma a história de vida da figura central da noite carioca entre os anos 1970 e 1990 em um mosaico de memória, excesso e invenção.
“Você pega a história da vida de um homem como o Ricardo, que produziu coisas gigantescas durante muitos anos. Ele não parou de produzir”, diz o diretor Pedro Dumans.
A exibição em Paris reforça o próprio eixo geográfico da narrativa, que atravessa Rio de Janeiro, Nova York e a capital francesa — cidades onde Amaral construiu uma rede de sociabilidade e negócios ligados à vida noturna. Para Dumans, esse movimento constante define o personagem: “Ele estava sempre criando coisas novas e de vanguarda”. O filme também já passou pelo Festival do Rio e inicia sua circulação internacional antes do lançamento comercial previsto para 2026.
Mais do que reconstituir uma biografia, o longa organiza a trajetória de Amaral a partir do princípio de excesso criativo. O empresário, responsável por mais de cem empreendimentos, foi movido pela reinvenção constante. “O grande tesão dele, ele mesmo diz, era criar, criar o tempo inteiro”, afirma o diretor. Boates, restaurantes, academias e casas de espetáculo aparecem como etapas de um impulso contínuo de experimentação urbana e cultural.
De bebê Johnson a rei da noite carioca
Se a noite de Ricardo Amaral foi feita de excessos, circulação e invenção, sua biografia pessoal parece operar no mesmo registro de fabulação contínua — como se a realidade, no seu entorno, também obedecesse a uma lógica de espetáculo permanente. Ainda adolescente, ele já aparecia em zonas de destaque improváveis: “sucesso desde bebê quando ganhou o concurso de bebê Johnson”, recorda o material de divulgação, como se a ideia de notoriedade tivesse sido naturalizada desde o início.
Esse volume de histórias, no entanto, impôs um desafio central à construção do filme. “Dizer para ele que não cabia tudo foi muito doloroso durante o processo”, admite Dumans, indicando que cada exclusão poderia representar uma pequena violência contra a própria lógica do personagem. A solução veio de um processo de seleção progressiva, em que narrativas recorrentes foram ganhando centralidade.
“As histórias mais marcantes são as que acabam entrando no documentário”, explica. O resultado, segundo ele, não é arbitrário, mas quase orgânico: um filtro de memória coletiva.
A estrutura do filme se aproxima de um desfile narrativo, em que episódios reais e anedóticos se acumulam como num carnaval. “Ele era um criador de coisas, de ideias”, resume Dumans.
Ao mesmo tempo, Rei da Noite não se limita à celebração. O filme tensiona a própria imagem pública de seu protagonista, conhecido por seu domínio narrativo e carisma. “Ele é um dos melhores contadores de história que eu conheço”, diz o diretor. Justamente por isso, a estratégia foi interferir nesse domínio. “Eu queria tirar ele da zona de conforto, provocar, para ver um lado mais humano”.
Entre documento e provocação
Essa intervenção se materializa na linguagem do filme, que rompe com o documentário tradicional e incorpora uma camada performática. Inspirado pelo universo circense e pelo cinema de Federico Fellini, o projeto cria um dispositivo de provocação em cena. “A gente criou um provocador que entra em cena e...
Duración:00:05:58
Trinta anos depois, Fernanda Abreu revisita Da Lata no Festival de Cinema Brasileiro de Paris
4/8/2026
Fernanda Abreu apresenta esta semana na capital francesa o documentário “Da Lata – 30 anos”, exibido no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, em um retorno carregado de simbolismo. É o reencontro com a cidade que, ainda em 1995, soube reconhecer a modernidade do seu trabalho e acolheu uma artista que transformava música, corpo e cidade em linguagem contemporânea, muito antes do Brasil urbano ganhar lugar no imaginário global.
Lançado no Brasil em 1995, o álbum Da Lata chegou à França pelas mãos do selo Totem Records, então voltado às músicas do mundo, e encontra uma recepção que surpreende Fernanda Abreu. Sem grandes expectativas em relação ao impacto do disco na Europa, a artista se viu imersa em uma intensa agenda de entrevistas – entre elas, uma passagem marcante pela RFI. Foi naquele contexto que uma das primeiras conversas com a imprensa francesa, com a jornalista Véronique Mortaigne, do Le Monde, cristalizou o impacto visual e simbólico do projeto.
O figurino com frigideiras, imagem central do álbum Da Lata e dos shows de Fernanda Abreu, foi lido como um gesto radical de afirmação feminina. Uma interpretação que projetava sobre o Brasil um avanço que a artista ainda não sabia existir, mas que já revelava a força estética e política do disco. O corpo feminino ocupava o palco com brilho, deslocava objetos de cozinha, latas e outros adereços metálicos do cotidiano doméstico para a cena e transformava a modernidade brasileira em linguagem artística.
O entusiasmo francês se traduziu em vendas, entrevistas, presença nas grandes lojas de discos da época e, sobretudo, em shows que consolidaram sua imagem internacional. “A receptividade foi muito boa, muito boa. E depois vieram os shows, que coroaram mesmo a minha figura aqui como uma artista brasileira fazendo uma nova música moderna brasileira.”
Um disco à frente do seu tempo
Trinta anos depois, Fernanda relê Da Lata como um trabalho precursor. “Foi um disco muito importante para a música brasileira”, afirma. “Ali no Rio de Janeiro, a gente estava começando a entender o que era o funk carioca.” Ela lembra que, poucos anos depois do primeiro álbum de DJ Marlboro, o funk já aparecia como referência no disco. “Você vê hoje como o funk dominou o Brasil e está indo para o exterior, na figura de Anitta, que é uma grande artista pop brasileira.”
Ao mesmo tempo, Fernanda introduzia o samba dentro de uma linguagem pop e eletrônica que dialogava com o circuito internacional. A lata, a panela, os materiais não nobres se tornavam símbolos. “A sociedade brasileira é muito desigual. A frigideira e a lata significam essa possibilidade do brasileiro de construir a vida com criatividade mesmo diante de tanta adversidade.”
Estética, desigualdade e política cotidiana
Essa dimensão leva inevitavelmente à política, entendida pela artista não como militância partidária, mas como prática do dia a dia. “Eu sempre achei que a política é a nossa vida cotidiana”, diz. “Acordar de manhã e lutar por justiça social, por uma igualdade maior, por um país mais justo, especialmente o Brasil, que é um país muito rico e que é muito desigual.” Para Fernanda, o olhar coletivo foi aprendido desde cedo. “A sociedade é a nossa família. Eu aprendi isso em casa.”
O documentário “Da Lata – 30 anos” nasce do desejo de contextualizar esse momento histórico. Dirigido por Paulo Severo, o filme parte de um vasto acervo audiovisual registrado durante a produção do disco. “Eu filmei a gravação toda do álbum, a mixagem, o making off, a estreia no Canecão”, explica o diretor. “Esse material ficou guardado comigo.”
A ideia de transformá‑lo em documentário surgiu inicialmente como um projeto de 25 anos, interrompido pela pandemia. “Seis meses antes dos 30 anos, ela me ligou e disse: ‘Temos que fazer’”, conta Severo. A partir daí, começou o trabalho de digitalização e decupagem do material.
A posição privilegiada do diretor no estúdio permitiu um registro raro. “Eles esqueciam que eu estava lá. Eu virei um móvel.” O...
Duración:00:13:36
Edição francesa de ‘Cotas Raciais’ provoca debate sobre dados, raça e desigualdade
4/7/2026
A publicação na França do livro “Cotas Raciais”, da promotora de Justiça brasileira Lívia Sant’Anna Vaz, reacende o debate sobre o uso de dados para medir desigualdades, tema que voltou ao centro da discussão pública após a inclusão da pergunta sobre a origem dos pais no recenseamento francês de 2025. Para a autora baiana, a experiência brasileira com ações afirmativas mostra que, sem diagnóstico, não há combate eficaz ao racismo. “A igualdade não é uma realidade na França”, afirma.
Lançado no Brasil pela coleção Feminismos Plurais, “Quotas Raciaux” chega ao público francês pela editora Anacaona justamente quando o país revisita os limites e a urgência de produzir dados sobre origem e discriminação. Lívia defende que reconhecer a raça como categoria analítica é indispensável para enfrentar desigualdades persistentes. “Negar o uso do nome raça não vai fazer com que o racismo desapareça”, diz a promotora.
Embora a França se recuse historicamente a produzir estatísticas étnico-raciais diretas, o reconhecimento das desigualdades existe. Relatórios sucessivos mostram que estudantes associados a origens estrangeiras são orientados de forma desproporcional para cursos técnicos; que 24% dos universitários afirmam sofrer discriminação relacionada à origem; que jovens com sobrenomes africanos precisam enviar muito mais currículos que seus pares para conseguir entrevistas de trabalho; e que jovens de bairros populares enfrentam abordagens policiais muito mais violentas do que os demais.
Para Lívia, esses dados fragmentados revelam uma verdade persistente: a igualdade republicana permanece, para muitos, apenas uma promessa. “É muito difícil curar uma doença sem diagnóstico. O racismo é uma doença, um câncer que precisa de cura”, afirma. Na visão da promotora, a recusa em medir não protege ninguém, apenas impede que políticas públicas sejam desenhadas de forma eficaz.
Brasil levou tempo para construir seu sistema de ações afirmativas
A autora insiste que a resistência ao reconhecimento da raça como categoria política não é exclusividade francesa. O Brasil também viveu um longo percurso até adotar políticas amplas de ações afirmativas. As primeiras iniciativas com recorte racial surgiram em 2001, e apenas em 2012 o país consolidou um sistema nacional de cotas por meio da Lei 12.711, após mais de uma década de debates, disputas públicas e amadurecimento institucional.
Para Lívia, essa comparação é importante porque mostra que nenhum país supera o racismo sem enfrentar tensões, contrapontos e revisões profundas de seus modelos de igualdade.
A contribuição do livro ao debate francês
É nesse contexto que “Quotas Raciaux” chega à França. O livro, baseado em sólida argumentação jurídica, histórica e moral, explica como as ações afirmativas brasileiras foram estruturadas para corrigir desigualdades persistentes e ampliar a presença de pessoas negras em espaços de poder.
Lívia enfatiza que as cotas não eliminam o mérito; ao contrário, selecionam os mais preparados dentro do grupo destinatário da política pública, corrigindo distorções produzidas por séculos de exclusão.
Para ela, a ideia de que a raça não deve ser mencionada é uma armadilha conceitual que só beneficia aqueles já privilegiados. “Raça e gênero são dois dos principais marcos de classificação social das pessoas. A raça se impõe antes mesmo que eu abra a boca”, afirma. Ignorá-la, diz, não transforma a sociedade; apenas torna o racismo ainda mais eficiente.
Responsabilidade e omissões persistentes
Lívia também aponta que a relutância francesa em discutir raça se conecta à dificuldade histórica de enfrentar o passado colonial. Ela critica a abstenção de países europeus, entre eles França e Portugal, na recente votação da ONU que classificou a escravidão como o crime mais grave já cometido contra a humanidade. Para a promotora, não se trata de um debate apenas jurídico, mas ético e moral: nenhuma sociedade supera desigualdades se continuar a evitar o reconhecimento de suas...
Duración:00:14:04
Festival de cinema brasileiro celebra força, pluralidade e memória afetiva em Paris
4/6/2026
O cinema L’Arlequin, no bairro de Saint‑Germain‑des‑Prés, abre as portas para a 28ª edição do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, que acontece de 7 a 14 de abril e exibe mais de 30 longas‑metragens, reafirmando seu papel como uma das maiores vitrine do audiovisual brasileiro na Europa. Nos estúdios da RFI, a curadora Kátia Adler detalhou a programação que, entre outros momentos marcantes, traz homenagens a Lázaro Ramos, Taís Araújo e Paulo Gustavo.
A programação de 2026 conta com oito filmes em competição, um conjunto de documentários e os lançamentos mais recentes que delineiam o panorama da produção cinematográfica atual. Sobre essa base, entram as escolhas curatoriais que permitem a Kátia Adler estabelecer diálogos, destacar trajetórias e criar focos temáticos. Foi desse movimento que nasceu a homenagem central deste ano: o casal Lázaro Ramos e Taís Araújo.
“Veio uma luz muito boa”, explica Kátia Adler. “É a primeira vez que homenageamos um casal. Para mim, eles são um exemplo de Brasil de ontem, hoje e de amanhã. São pessoas essenciais no audiovisual, na política, como exemplos para as novas gerações.”
Essa homenagem reflete não apenas o talento artístico do casal de atores, mas também a força simbólica que ambos adquiriram na transformação da representação negra na mídia brasileira. Lázaro e Taís são reconhecidos há décadas como protagonistas de uma mudança estrutural que ampliou a presença, a voz e o imaginário de artistas negros no país, contribuindo de maneira decisiva para romper estereótipos e projetar um Brasil mais plural e inclusivo.
Abertura com “Da Lata – 30 Anos” e “Querido Mundo”
A abertura do festival reúne pulsação musical e sensibilidade narrativa. O documentário “Da Lata – 30 Anos”, de Paulo Severo, será exibido com a presença da cantora Fernanda Abreu, enquanto o longa “Querido Mundo”, de Miguel Falabella, premiado no Festival de Gramado, compõe a sessão dupla.
Kátia recorda sua primeira impressão ao ver o documentário sobre Fernanda: “O filme dela é excelente; ele conta um pouco a história da música dela e da música brasileira através dela própria. Tê-la aqui conosco é uma honra para nós.”
Sobre a escolha de “Querido Mundo” para dividir a abertura, ela acrescenta: “É uma fábula e acho que as pessoas vão gostar muito, vão sair muito positivas da sala depois. É uma história de amor e, ao mesmo tempo, é um filme positivo.”
Música como eixo afetivo do festival
A música ganha espaço central na programação deste ano, com documentários dedicados a Rita Lee, Milton Nascimento, e a presença especial de Alaíde Costa, homenageada pelo longa de animação “A Noite de Alaíde”, dirigido pela cineasta baiana Liliane Mutti. O filme celebra os 90 anos da cantora, destacada pelo festival com o a única voz feminina negra da Bossa Nova.
Radicada em Paris, Liliane Mutti dirigiu “Miúcha, the Voice of Bossa Nova”, de 2022. Dois anos depois, a cineasta lançou “Madeleine à Paris”, sobre o multiartista baiano Robertinho Chaves, figura central da Lavagem da Madeleine e ícone da noite parisiense. Atualmente, ela está finalizando um documentário sobre Angela Rô Rô.
O riso como resistência: tributo a Paulo Gustavo
Pela primeira vez, o festival dedica um bloco inteiro às comédias, em homenagem a Paulo Gustavo, cuja obra permanece entre as mais populares do cinema brasileiro. Kátia lembra o impacto do humorista: “O cinema é um retrato da sociedade e Paulo Gustavo representou muito para o cinema brasileiro. (…) A frase dele, que ele sempre colocou, era ‘rir é um ato de resistência’.”
Além das estreias e homenagens, a curadora incluiu na programação a “Sessão da Tarde”, com os grandes sucessos de 2025, como “Ainda Estou Aqui”, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional, e “O Agente Secreto”, destaque das bilheterias e indicado ao Oscar. Kátia avalia esse momento dizendo:
“'Ainda Estou Aqui' com o Oscar foi muito importante. A gente está na cena internacional cada vez mais forte. 'O Agente Secreto' foi um sucesso...
Duración:00:10:31
Pintor Gonçalo Ivo abre sua 'Janela para a África' em nova exposição em Paris
4/2/2026
O pintor carioca Gonçalo Ivo apresenta em Paris a exposição “Janela para a África”, na Maison Gacha. Inaugurado há pouco mais de um ano, o espaço já se destaca pelo acervo notável de arte africana, que inclui peças raras e de forte carga simbólica. É nesse ambiente que as pinturas e os objetos de madeira do artista brasileiro estabelecem um diálogo vivo com tecidos kente de Gana, veludos Kasai do Congo e os ndop do povo Bamileke de Camarões – uma conversa entre formas, cores, ritmos e memórias que atravessam continentes.
Essa conexão não surgiu por acaso. “A África sempre esteve no meu coração”, disse Ivo logo no início da entrevista. Sem nunca ter pisado no continente, ele contou que sua obra já carregava, desde os anos 1980, marcas dessa influência – uma “geometria mole”, como um amigo definiu na época. “Sou um dos poucos artistas brasileiros que foram impregnados por essa cultura tão rica, tão fascinante”, afirmou.
Os tecidos kente, originários dos povos Ashanti e Ewe de Gana, são trançados em tiras estreitas com padrões geométricos carregados de simbolismo. Os veludos Kasai, do povo Kuba no Congo, são bordados em ráfia e tradicionalmente associados a prestígio e cerimônias. Já os ndop Bamileke, de Camarões, são panos azul‑índigo decorados com motivos geométricos que remetem à proteção, à fertilidade e à ancestralidade.
A exposição nasceu de um impulso familiar. A ideia partiu de seu filho, Leonardo, que cresceu cercado pelas obras do pai, estudou história da arte e reconheceu nelas, junto com colegas da faculdade, essa relação com formas africanas. Com os amigos Rafaela Sales e Danilo Lovisi – este último curador da mostra –, o trio percebeu que muitos objetos em madeira feitos por Ivo desde os anos 1980 pareciam ecoar artefatos rituais africanos.
Ressonância presente desde os anos 1980
Três obras de 1988-1989, que Ivo chama de “Janela em Ndebele”, inspiradas no povo Ndebele, da África do Sul, foram selecionadas diretamente em um dos ateliês que o pintor mantém no Brasil. Ao lado delas, apenas três trabalhos recentes. Todo o resto vem do “retrovisor”, como ele mesmo descreve – peças que, vistas agora em Paris, parecem ganhar novo sentido diante das tradições africanas.
Ele contou que, ao folhear o catálogo ao lado da mulher, Denise, chegou a se confundir. “Eu olhava alguns tecidos e pensava: será que fui eu que fiz isso?” A frase, dita com humor, explica algo central no seu processo: “Os artistas são como esponjas. Absorvem coisas consciente e inconscientemente.”
Ivo lembrou do célebre comentário de Picasso – “eu não copio, eu roubo” – e comentou como a potência estética de culturas africanas, mexicanas, nepalenses sempre o atraiu. “A nossa arte ficou muito arrogante, muito intelectualizada. Às vezes, uma folha me diz mais do que um Picasso”, confessou.
Objetos carregados de sentido
Seus olhos se iluminaram ao falar sobre o impacto que sentiu no primeiro encontro com as peças do acervo da Maison Gacha. “É de perder o fôlego. São objetos belíssimos, carregados de sentido”, disse. Ele reconhece que seus próprios objetos de madeira dialogam com peças de culto africanas, feitas para afastar maus espíritos ou para atrair a sorte.
É essa rede de ressonâncias – cultural, formal, espiritual – que revela afinidades profundas na exposição. “Sou como uma árvore: tenho várias raízes tocando vários lugares”, explicou, lembrando também de sua ligação com tradições afro-baianas, como o Pano da Costa, tema de uma série produzida nos anos 1990.
Questionado se esse encontro também poderia existir com a arte indígena brasileira, a resposta é imediata: “Tenho, sim, uma porta de diálogo. Minha avó era índia Caeté. Acho que isso aparece muito na coisa plumária.”
Disciplina e conexão com a natureza
Disciplinado, Ivo acorda às 3h30 ou 4h, trabalha sempre com luz natural e encerra o dia cedo. Não por disciplina moral, mas por necessidade visual e orgânica. “A luz é a luz”, resumiu.
Ele atribui esse rigor não apenas à prática...
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Em turnê europeia, Lucas Santtana canta o ‘brasiliano’ que derrete o mundo pela sonoridade
4/1/2026
No início da turnê que celebra seus 25 anos de carreira, Lucas Santtana tem encontrado na Europa não apenas plateias entusiasmadas, mas um público pronto para acolher, e muitas vezes ecoar, a reflexão central de seu novo álbum: a necessidade de o Brasil reconhecer que fala uma língua própria, formada no encontro entre matrizes indígenas, africanas e europeias, e portanto distinta daquela introduzida pelo colonizador português.
Essa reflexão se materializa em “Brasiliano”, disco lançado em 2026 com 11 faixas e construído deliberadamente como uma obra multilinguística, cantada em oito idiomas: brasiliano (português do Brasil), tupi-guarani, occitano, francês, italiano, espanhol, galego e o crioulo da Guiné-Bissau.
Em cidades como Bonn, Londres e Paris, o debate provocado pela pesquisa linguística que originou o álbum tem ganhado corpo no palco. Em Bonn, a simples menção à “língua brasileira” gerou aplausos imediatos. Em Londres, um espectador retrucou em voz alta: “Você fala português!”, encarnando sem perceber o gesto colonial que o disco procura problematizar. A plateia respondeu por Santtana, em coro, com um “cala a boca” espontâneo.
Já na França, onde o músico vive, essa distinção entre o português europeu e o falar brasileiro parece já assimilada.
“Nunca me disseram: ‘Tu parles portugais’. Todos dizem: ‘Vous parlez brésilian’”, conta Lucas Santtana.
Essa convivência cotidiana com o olhar francês revelou algo que, segundo Santtana, os próprios brasileiros raramente percebem: o quanto a nossa língua é amada fora do Brasil. “Eles se derretem pela nossa sonoridade”, afirma. “No começo eu dizia: ‘Não, no Brasil a gente fala português’. Só depois comecei a me tocar: cara, é diferente.”
Esse estranhamento inicial, seguido de admiração externa, o levou a estudar a história da língua e compreender que a distinção entre português e o idioma brasileiro era não apenas real, mas reconhecida em outros países. “A percepção francesa me deu esse norte. Eles amam a nossa língua. E a gente não dá esse valor.”
A origem de “Brasiliano”
Uma das camadas mais ricas do disco nasce justamente de sua investigação linguística. Santtana explica que, do ponto de vista da gramática, os sufixos tradicionalmente usados para designar línguas em português são –iano e –ês: japonês, inglês, francês, italiano, australiano. Aplicando essa lógica, o idioma falado no Brasil poderia, portanto, chamar-se "brasiliês" ou "brasiliano", ainda que o uso corrente permita também “brasileiro”.
O elemento decisivo veio da história. No século XVIII, em Portugal, o termo brasileiro não designava o habitante nativo do Brasil, mas o português que trabalhava no Brasil, geralmente no comércio do açúcar, do ouro ou na intermediação colonial. Já o filho desse português, nascido no território sul-americano, recebia outra designação: brasiliano. Era o natural da terra, o nativo legítimo.
“Eu achei interessante essa associação: existir esse nome, brasiliano, para uma pessoa nascida no Brasil”, diz Santtana. Ao retomar esse termo, ele se aproxima dessa ideia de origem territorial, algo que dialoga diretamente com o conceito do disco, que revisita as matrizes linguísticas que realmente formaram o Brasil: 1.800 línguas indígenas, cerca de 300 africanas e o português europeu.
Mesmo assim, ele faz questão de relativizar: “Na verdade, o nome da língua pouco importa.” O que importa é o gesto simbólico, o reconhecimento de que a língua brasileira existe, tem corpo próprio, musicalidade própria, e não pode ser reduzida a um apêndice lusitano. A cada show, Santtana relata que o público percebe intuitivamente essa distinção.
Todo o trabalho de Lucas Santtana é engajado. Em seu disco anterior, “Paraíso”, ele já havia abordado questões sociais e de meio ambiente.
Arquitetura de um disco político e sensorial
A multilinguagem de “Brasiliano” ganha corpo também por meio das vozes que Lucas Santtana convoca para dialogar com ele ao longo das 11 faixas do disco. A abertura, “A História da...
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Documentário 'Copan' disputa prêmio no Festival de Cinéma Latino-americano de Paris
3/30/2026
Como o próprio nome diz, "Copan" aborda o cotidiano do imenso edifício em São Paulo projetado por Oscar Niemeyer nos anos 1950, símbolo da arquitetura moderna brasileira. O olhar da jornalista e cineasta Carine Wallauer sobre funcionários e moradores do prédio renderam um cativante documentário que venceu o prêmio principal do célebre festival "É Tudo Verdade", em 2025. Depois de ter passado pelo Cinélatino, em Toulouse, o público da capital francesa poderá assistir ao trabalho no Festival de Cinéma Latino-americano de Paris, em 10 de abril, onde concorre na categoria de longa-metragem.
Daniella Franco, da RFI
O edifício Copan foi a casa de Carine Wallauer durante sete anos, dos quais cinco passou produzindo o filme. O objetivo, segundo ela, era fazer um retrato cinematográfico deste icônico prédio paulistano. "É uma história que se cruza com a minha própria história", resume.
No entanto, diferentemente das reportagens produzidas sobre o Copan ao longo de seus 60 anos de existência, que mais focaram nos moradores, a cineasta decidiu se concentrar no cotidiano dos funcionários. "Eu venho de uma família da classe trabalhadora, e eu mesma trabalhei em shopping durante sete anos, então prestei serviços para outras pessoas. Eu entendo o quanto essa classe não é ouvida, principalmente em assuntos considerados mais formais, mais sérios, como política, por exemplo", diz.
Boa parte das gravações foi realizada em 2022, período no qual o prédio se tornou um microcosmo da campanha para as últimas eleições presidenciais. No filme, Carine ainda retrata a eleição para síndico do Copan, um processo com uma tensão comparável à do pleito nacional. "Eu queria muito ouvir o que eles pensavam sobre política e sobre o que é viver neste lugar", ressalta.
Por outro lado, a cineasta decidiu não exibir nenhum trecho das mais de 50 horas de entrevistas com empregados e moradores do Copan por ter optado por realizar um filme de observação. Por isso, sua câmera segue os acontecimentos e movimentações no edifício sem interagir diretamente com os personagens. "Ele é um documentário que se expande, com características de um cinema de arte, em que a ficção se mistura com a linguagem do documentário", explica.
Segundo Carine, o fato de ser uma moradora do Copan a ajudou a retratar o cotidiano do local, facilitou a entrada em alguns apartamentos e em espaços do edifício que quase ninguém tem acesso, como um redário, onde os empregados descansam. "Algumas portas se abriram naturalmente por eu morar lá. Eu não fui uma diretora, uma jornalista que chegou neste lugar para passar um dia. Quando começamos, eu já estava ali há dois anos. Havia uma familiaridade de algumas pessoas comigo, principalmente dos funcionários ", diz.
Intimidade da natureza do prédio
Carine conta que quando o então síndico do Copan, Afonso — que ocupou o cargo por 35 anos e faleceu em dezembro passado — lhe concedeu acesso a locais restritos do edifício, o documentário tomou outro rumo. "Ele tinha muito cuidado e muita desconfiança de como seria abordada a história do prédio. Então, quando ele me deixou acessar esses lugares, o filme se transformou. Por isso, mais do que mostrar a intimidade dentro dos apartamentos, a gente mostra uma intimidade da própria natureza do prédio", destaca.
Segundo a cineasta, a trajetória de "Copan" foi sendo conduzida a partir das descobertas e do diálogo com os trabalhadores do local, entre os quais muitos não tinham a cultura do cinema. "Então tivemos muitas conversas onde eu explicava o que era o filme, como a gente ia fazer, como eles seriam colocados diante da câmera. Foi um trabalho de junção coletiva e que resultou com eles se vendo no cinema, muitos indo ao cinema pela primeira vez para se ver", comemora.
Carine admite que a estreia do filme na Europa, no ano passado, lhe suscitou certa ansiedade por acreditar que os expectadores não teriam contexto para a compreensão total de seu trabalho. No entanto, a reação do público a surpreendeu. "A...
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Ao lado de novo prefeito, brasileira integra a gestão municipal de Saint‑Denis
3/27/2026
A historiadora franco-brasileira Silvia Capanema, professora da Universidade Sorbonne Paris Nord, foi eleita para mais um mandato público: ela volta ao conselho municipal de Saint‑Denis, em função equivalente à de vereadora no Brasil. Integrante da equipe do prefeito recém‑eleito Bally Bagayoko, do partido A França Insubmissa (LFI), Silvia falou à RFI sobre a vitória expressiva conquistada por esse filho de imigrantes do Mali, que irá comandar uma cidade marcada por desigualdades, mas de forte identidade multicultural.
Silvia Capanema tem uma trajetória política consolidada em Saint‑Denis. Ela já havia sido vereadora de 2014 a 2020 e exerce, desde 2021, o segundo mandato como conselheira departamental de Saint‑Denis – instância administrativa que reúne mais cidades nesse território ao norte da capital francesa, onde fica o Stade de France.
A eleição de Bally Bagayoko – com 50,7% dos votos, ainda no primeiro turno – marcou o fim da gestão de Mathieu Hanotin, prefeito do Partido Socialista (PS) que tentava a reeleição. A rejeição a Hanotin se enraízou sobretudo na recusa do projeto de gentrificação e transformação urbana da periferia que sua administração tentou impor à cidade.
Durante seis anos, o governo socialista defendeu operações imobiliárias que, segundo Silvia, iam “aumentar o custo da moradia e expulsar a população mais pobre da cidade para outros bairros mais longe e ‘emburguesar’, de alguma forma, a população de Saint‑Denis”. Ela afirma que o projeto provocou uma ruptura profunda entre a prefeitura e os moradores.
Resistência organizada
“A população sentiu isso como uma agressão muito violenta aos habitantes históricos” do município, diz Silvia. “Saint‑Denis não está à venda, não é uma cidade para ser privatizada, loteada com operações imobiliárias e a substituição de uma população.”
Para ela, ao insistir nessa transformação urbana, o prefeito do Partido Socialista acabou indo contra a alma do território. “É uma cidade que conta muito com o movimento associativo, com o movimento político, com as classes populares que fazem parte de uma história marcada por trabalhadores, migrantes e imigrantes.”
Silvia reforça que Saint‑Denis tem um tecido social resistente e organizado: “É uma população que luta, que se organiza, muito diversa e muito ativa. A cidade deve viver e existir em função dessa população que tem relação histórica com ela.”
Esse afastamento entre o governo municipal e seus habitantes abriu espaço para a ascensão de Bagayoko, cuja ligação com o território foi decisiva em sua vitória.
“Uma cria de Saint‑Denis”
Bally Bagayoko, 52 anos, é conhecido em toda a cidade. Educador esportivo, jogador de basquete e executivo da empresa de transporte público RATP, ele sempre atuou em associações, movimentos locais e encarna – aos olhos de muitos moradores – o espírito da cidade.
“Ele é aquilo que chamamos de uma cria de Saint‑Denis”, diz Silvia. “Cresceu aqui, estudou na escola pública, treina clubes de basquete até hoje. É uma figura muito popular.”
Essa identificação reflete também o perfil da população local. Saint‑Denis reúne mais de 140 nacionalidades, fruto de diversas ondas migratórias vindas, em grande parte, do antigo império colonial francês. “É uma população totalmente francesa, essa Nova França, muito diversa e muito ativa”, afirma.
Ataques racistas na campanha
Foi nesse cenário multicultural que as tensões da campanha se agravaram. Segundo Silvia, durante a disputa eleitoral, o prefeito socialista insinuou que Bagayoko – um homem negro – teria ligações com o tráfico de drogas. A relação implícita entre criminalidade e origem racial provocou revolta imediata. “Foi um escândalo. A população rejeitou imediatamente essa associação”, relata a historiadora.
O episódio expôs um racismo estrutural ainda presente na política francesa. A ofensiva cresceu quando veículos de extrema direita começaram a sugerir que o candidato estaria “nas mãos de traficantes”. “Foi chocante, mas mostrou como essa visão...
Duración:00:11:51
No turbilhão das crises atuais, o pensamento de Jung ressurge como ferramenta para elaborar o mundo
3/26/2026
Vivemos um momento em que o noticiário parece ecoar um passado que acreditávamos superado: guerras que retornam, fronteiras tensionadas, sociedades polarizadas, discursos inflamados que se repetem como velhos fantasmas. É nesse contexto que a psicóloga e psicanalista franco-brasileira Elaine Franzini Soria, membro da Associação Junguiana de Psicanálise da Occitânia, estará no dia 28 de março, em Toulouse, ao lado de outros especialistas, apresentando e debatendo com o público as bases da psicologia analítica no seminário “Os Complexos Culturais do Ocidente, Sombra e Futuro”.
O encontro parte da constatação de que compreender o presente exige olhar para camadas mais profundas da psique coletiva – tema que orientou nossa conversa com a especialista. Elaine lembra que o conceito de “complexos”, formulado pelo psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), se baseia na existência de “zonas sensíveis” carregadas de emoção e memória.
“Cada pessoa carrega dentro de si zonas sensíveis, com muita energia psíquica concentrada em torno de um núcleo. E esse núcleo pode ser uma ferida antiga, uma memória carregada de emoção, uma experiência que marcou profundamente a vida da pessoa, o que Jung chama de ‘complexos’”, afirma. Segundo ela, Jung sublinhava algo decisivo: “Não sou eu, a pessoa, que tem um complexo; é o complexo que me tem.”
Quando um elemento externo – “uma palavra, uma situação” – toca esse núcleo, explica Elaine, ele pode assumir momentaneamente o comando da consciência. “Isso invade o campo da consciência, então é isso que o Jung chamou de complexo.”
Se esse funcionamento é visível na vida privada, ele se amplia no plano coletivo, observa a psicanalista franco-brasileira, que mora e atua profissionalmente em Montpellier (sul) desde 2017.
“Você imagina esta dinâmica individual alargada para o coletivo”, observa.
“Alguns pesquisadores, como Thomas Singer e Samuel Kimbles [associados ao Instituto C. G. Jung de São Francisco, nos EUA], mostram que povos inteiros, culturas inteiras e nações também carregam seus complexos.”
Ao analisar o cenário atual, marcado por conflitos armados e por disputas ideológicas acirradas, Elaine destaca o papel da sombra coletiva – outro conceito essencial de Jung. “A sombra é um conceito junguiano que fala de conteúdos que não puderam ser veiculados no campo da consciência”, afirma. Quando ampliado ao nível social, trata-se de ideias, impulsos e comportamentos que não cabem no “status quo”, mas que também não desaparecem. “Esses conteúdos da consciência ficam numa camada mais profunda, concentrando uma energia, e acabam determinando muitos dos eventos que estamos presenciando hoje no coletivo.”
Transmissão transgeracional
Elaine descreve como traumas históricos – guerras, um processo de colonização, uma humilhação coletiva – permanecem atuantes na psique dos grupos.
“Quando algo ativa – uma crise, a chegada de um estrangeiro, de populações que migram –, esse grupo reage como se voltasse àquele momento de dor e medo, sem perceber. Esses complexos funcionam como um piloto automático coletivo; eles falam através de nós e, às vezes, sem que a gente saiba.”
Atualmente, em um mundo bombardeado de informações contraditórias, os grupos se confrontam, cada um convicto de que tem uma razão.
A especialista também se apoia em Jung para abordar a transmissão transgeracional desses conteúdos. Ela cita de memória uma ideia do analista suíço: “Tudo aquilo que resta inconsciente na psique individual se apresenta num momento ulterior em forma de destino.” E completa:
“Aquele conteúdo, aquele povo, aquele grupo que eu não reconheço através de uma experiência de outramento, de alteridade, vai se manifestar de uma forma ou de outra, de forma violenta, porque ele precisa ser integrado, precisa ser reconhecido pelos pares.”
Discursos extremistas
Outros elementos centrais da psicologia analítica – como mitos, símbolos e sonhos – também ajudam a compreender o cenário de intensificação de...
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'Envelhecer abre uma porta no final da vida com possibilidades e desejos', diz atriz Denise Weinberg
3/25/2026
Em entrevista à RFI durante o Cinélatino, em Toulouse, a atriz brasileira Denise Weinberg falou sobre a personagem que interpreta em “O Ultimo Azul”, de Gabriel Mascaro, que venceu o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim, em 2025. O longa-metragem de ficção aborda a temática do envelhecimento e o "descarte" de idosos pela sociedade.
Daniella Franco, enviada especial da RFI a Toulouse
Em “O Último Azul”, Denise Weinberg vive Tereza, uma trabalhadora da região amazônica prestes a completar 77 anos, idade na qual no universo distópico criado por Mascaro, as pessoas são levadas para uma colônia compulsória para idosos. Inconformada com a imposição, a protagonista se rebela e foge da familia e das autoridades, caindo na ilegalidade para realizar seus sonhos.
A um mês de completar 70 anos, Denise se reconhece em Tereza, a quem atribuiu muitos traços da sua propria personalidade, como a rebeldia e a curiosidade.
“A gente fez um acordo, eu e a Tereza”, brinca. “Eu emprestei muita coisa minha pra ela e ela também endossou o que eu pensava. Eu fui a luva e ela, a mão”, diz.
Premiado também no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, de Havana e no Golden Panda Awards, na China, o sucesso do longa é atribuído por Denise à temática universal da chegada à terceira idade, em um momento em que as pessoas estão vivendo cada vez mais. Para a atriz, os estereótipos relacionados à essa fase da vida tiram a autonomia e a independência dos idosos, resultando no autoisolamento deles.
“Os geriatras e os neurocientistas dizem que você só começa a envelhecer quando você perde a curiosidade pelas coisas e pelas pessoas. Tem idosos hoje em dia que estão aí, com 90 anos, trabalhando, morando sozinhos, com autonomia total”, salienta.
Aceitar o envelhecimento
Para Denise, a experiência do envelhecimento é algo que classifica como “interessante”.
“Você abre uma porta no final da sua vida com possibilidades e desejos que antes nunca tinham passado por sua cabeça. Você vê as coisas de um outro ponto de vista, de uma maneira mais plácida, mais serena e com mais aceitação”, explica.
A atriz também destaca a maior liberdade que adquiriu chegando aos 70 anos. “Eu tenho a possibilidade de fazer o que eu quero. Eu digo ‘não’ com mais facilidade e respeito os limites, sem me lamentar”, reitera, lembrando que esse também é um traço da personagem Tereza.
Por outro lado, Denise observa a obsessão do meio artístico com a estética, na busca pela reversão de um processo natural. “Uma vez um diretor me disse: ‘nunca mexa na sua cara, porque as suas rugas valem ouro’”, relembra. “Eu não tenho nenhum procedimento estético, e até brinco com Gabriel Mascaro, que ele só me chamou para interpretar a Tereza por isso”, ri.
Denise lamenta presenciar atrizes na faixa dos 20 anos fazendo harmonizações faciais, “uma coisa que fica horrorosa, porque no final fica todo mundo com a mesma cara”. “Eu acho que além de isso ser uma violência fisica, essa também é uma escravatura que a mulher tem com a beleza. Não é biologicamente normal”, aponta.
Para a atriz, manter sua fisionomia também é uma questão de respeito à sua personalidade. “Sempre pensei que, se fizesse procedimento estético, quando acordasse de manhã e me olhasse no espelho, não seria eu, com as minhas histórias, com o que eu tenho para contar. A minha vaidade é com o meu trabalho, não como o meu físico”, resume.
Duración:00:21:56
Filme brasileiro sobre bebê sequestrada na ditadura faz estreia mundial no Cinélatino, em Toulouse
3/24/2026
O longa-metragem “Ela foi ali guardar o coração na geladeira”, de Cristiane Oliveira e Gustavo Galvão, aborda a história de uma mulher sequestrada quando bebê, no período da ditadura militar. O filme fez sua estreia mundial no festival Cinélatino, em Toulouse, no sudoeste da França, na segunda-feira (23).
Daniella Franco, enviada especial da RFI a Toulouse
“Ela foi ali guardar o coração na geladeira” compete na categoria longa-metragem de ficção do evento. De forma extremamente original, o filme traz um compilado de “cartas-vídeo” em que a uruguaia Veronica conta para a sobrinha, a porto-alegrense Luiza, a história de sua vida, que considera “uma farsa”.
Veronica é filha de uma presa política brasileira, morta durante o regime militar, mas foi “doada” quando bebê a uma família vinculada à ditadura no Uruguai. A personagem foi criada com base em histórias de crianças brasileiras sequestradas nesta época fatídica, que só vieram à tona recentemente.
“Isso era algo que se acreditava que não acontecia no Brasil”, diz Cristiane Oliveira, lembrando que até hoje paira no imaginário das pessoas que esse tipo de crime ocorreu em outros países sul-americanos palco de ditaduras, como a Argentina e o Chile. “Comprovou-se recentemente que isso aconteceu sim, e isso nos tocou por estarmos pessoalmente muito mexidos por descobrir pessoas próximas que apoiavam esses regimes”, reitera.
Outro ponto que motivou os dois cineastas foi a vontade de trabalhar com a memória da ditadura militar brasileira. “A verdade é que no Brasil a gente esqueceu muito rapidamente o que aconteceu”, lamenta Gustavo Galvão, que se diz chocado com o fato de a revelação recente de casos de crianças sequestradas por militares não ter repercutido na imprensa.
Os dois diretores também destacam o objetivo estético do filme, que trabalha com a linguagem das “vídeo-cartas”. A escolha fornece um aspecto documental ao trabalho, apesar de ser um filme de ficção inspirado em histórias reais.
“Há muitos sobreviventes desses crimes vivos, mas é difícil hoje em dia achar as provas e as origens, e muitos casos estão sem solução”, ressalta Cristiane. “O diferencial da Argentina é que teve julgamento, logo em seguida que tudo aconteceu. No Brasil não teve, então muita coisa foi sendo jogada para debaixo do tapete”, reitera.
O trauma e a dor dos sobreviventes
Para Gustavo, é difícil conceber que os criminosos que participaram deste tipo de violência não foram responsabilizados. No entanto, para o cineasta, ainda pior é o trauma dos sobreviventes, uma dor que a personagem Veronica relata no filme.
“Você perder a identidade com mais de 40 anos, quase 50 anos, eu não sei como alguém consegue se recuperar disso”, diz. “Construindo a personagem da Veronica, a gente se viu em determinados momentos pensando que não deve ter nada pior do que isso”, completa.
Ironia do destino, a personagem Luiza, a sobrinha da protagonista do filme a quem são endereçadas as cartas-vídeo, foi criada em uma família ultraconservadora gaúcha. A mãe da jovem, que adoeceu e morreu, chegou a conhecer a irmã sequestrada antes de morrer, mas escolheu manter o segredo. Por meio dos relatos enviados a Luiza, Veronica tenta alertá-la de publicações que a garota faz nas redes sociais que fazem apologia ao regime militar.
“A Veronica tenta entender por que pessoas próximas que tiveram acesso à educação preferem colocar uma barreira em certos assuntos e não aceitam o diálogo”, afirma Gustavo. “Quando a gente chega neste ponto, não é mais nem uma questão de ser direita ou de esquerda, mas humanista mesmo”, reitera.
“A gente precisa conversar com os jovens"
O diretor salienta o distanciamento da juventude brasileira dos crimes cometidos durante a ditadura militar. Por isso, para ele, é fundamental resgatar e comunicar essas memórias.
“A gente precisa conversar com os jovens, não contar o que aconteceu de uma forma didática, mas trazer o lado humano dessas histórias. Temos que resgatar essa humanidade e os jovens...
Duración:00:18:18
UFPA busca liderança científica pós‑COP30 e reforça parcerias com a França para proteger a Amazônia
3/23/2026
A Universidade Federal do Pará (UFPA) realizou, entre 16 e 20 de março, um tour científico por Toulouse, Montpellier, Le Mans, Tours e Paris, com o objetivo de fortalecer parcerias internacionais e consolidar seu papel como referência global em pesquisas sobre biodiversidade e clima após a COP30. A iniciativa busca integrar o conhecimento tradicional amazônico às tecnologias avançadas desenvolvidas na Europa.
Maria Paula Carvalho, da RFI
Em entrevista à RFI em Paris, o reitor Gilmar Pereira da Silva explica que a viagem aprofunda décadas de cooperação da UFPA com instituições francesas. “Foi um périplo para reforçar ações que já fazemos juntos. Os acordos entre a UFPA e a França vêm do século passado, e muitos de nossos pesquisadores foram formados aqui nos anos 1980”, afirma. Ele destaca que a COP30 evidenciou a necessidade de transformar essa colaboração em ações permanentes voltadas à defesa da Amazônia. “Agora estamos nos preparando para o que teremos a dizer na COP31.”
Entre os temas tratados, ganharam destaque os projetos MangMap e MOSAIC, focados no mapeamento e monitoramento dos manguezais. “A UFPA tem uma tradição forte no estudo dos mangues, que já resultou em políticas públicas como o período de defesa do caranguejo. Esses mapeamentos são essenciais para garantir a sobrevivência desses biomas”, explica o reitor.
A missão também firmou novos acordos com o CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica) e o CIRAD (Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa e Desenvolvimento Agrícola), ampliando a cooperação científica e prevendo intercâmbio entre pesquisadores brasileiros e franceses. O reitor reuniu‑se ainda com a direção do IRD (Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento), na Maison du Brésil, em Paris, e confirmou a instalação de um polo do Instituto das Américas em Belém — o segundo no Brasil, depois da USP.
Amazônia: entre ameaças e esperança
Sobre o futuro da floresta, Gilmar Pereira da Silva mantém o otimismo: “A UFPA está em 12 campi e presente em 83 municípios do Pará. Temos uma leitura muito clara de como proteger a Amazônia.” Ele lembra que 95% da ciência brasileira é produzida por universidades públicas e que a UFPA é a instituição que mais gera conhecimento sobre a região no mundo.
A COP30, realizada em Belém, também foi marcada pelo protagonismo indígena. “Recebemos a Cúpula dos Povos, mais de 40 mil pessoas, e hospedamos 6 mil indígenas de todo o mundo. A visibilidade foi inédita”, afirma.
As ameaças à floresta, porém, seguem presentes: grilagem, poluição, garimpo ilegal e a pressão sobre as terras indígenas. “Garantir esses territórios é proteger todos nós. Abrir essas áreas para uso agrícola teria impactos terríveis para a Amazônia e para o planeta.”
Para o reitor, é fundamental que a sociedade compreenda o alcance global desse debate. “Ao defender a Amazônia, defendemos a humanidade.”
Duración:00:06:00
Abel Luiz lança Cordal Carioca em Paris e celebra a força coletiva da música brasileira
3/20/2026
Em Paris, onde realiza oficinas, encontros e apresentações ao longo de uma temporada europeia, o multi-instrumentista brasileiro Abel Luiz lança no dia 25 de março o álbum Cordal Carioca, que chega às plataformas digitais na mesma data. Ele descreve o disco com uma imagem que sintetiza bem sua estética: um Brasil múltiplo, urbano e rural, popular e de concerto, ancestral e contemporâneo.
O álbum apresenta seis peças solo escritas para seis instrumentos de cordas distintos – do cavaquinho à viola caipira, passando pelo violão tenor –, todos tocados pelo próprio músico.
“O Cordal Carioca é música instrumental brasileira que é música popular, que é música regional, que é música de concerto… é música do Brasil”, diz Abel, com um entusiasmo calmo de quem conhece profundamente a diversidade da cultura brasileira.
É um trabalho que sintetiza sua experiência como pesquisador, compositor e músico de rodas, um cruzamento raro de rigor e intuição, técnica e afeto.
Além do álbum, Abel oferece gratuitamente ao público as partituras e o material audiovisual que acompanha o projeto – uma escolha que dialoga diretamente com sua trajetória de formação. “Muito do que eu aprendi se deve à generosidade de pessoas que compartilharam o que sabiam comigo.”
Essa transmissão começou no ambiente familiar e logo se expandiu para as rodas dos subúrbios cariocas. “Eu comecei como autodidata, aprendendo com meu avô, frequentando rodas de choro, de samba, de batuques e serestas nos subúrbios e periferias do Rio de Janeiro.”
Nesses encontros, ele recebeu o impulso que moldou sua identidade musical: “Essas pessoas foram muito generosas em me acolher e me dar a oportunidade de tocar e estar junto.”
O passo seguinte foi a sistematização desse percurso no mestrado profissional da UFRJ, orientado por Henrique Kazes. Ali, a soma de esforços de professores, amigos, músicos e técnicos permitiu transformar o projeto em um conjunto robusto de materiais abertos. Como ele explica, “a gente tem um material completo, composto de álbum, livro de partituras, o audiovisual e também o registro da pesquisa, para todo mundo ter acesso... todas essas três plataformas disponíveis para download gratuito ao alcance de todos.”
Lançamento no Festival Internacional do Choro de Paris
O lançamento europeu do novo álbum acontece no 22º Festival Internacional do Choro de Paris (de 27 a 29 de março), onde Abel apresentará, no dia 28, duas peças solo antes de reunir no palco os músicos do Clube do Choro de Paris. “A gente vai tocar choros, algumas peças autorais minhas, que já estão gravadas por outros instrumentistas do Brasil e do mundo, e algumas outras peças do disco, mas em versões arranjadas para o regional”, detalha.
Nesta temporada na Europa, que inclui França, Holanda, Bélgica e Inglaterra, Abel se surpreendeu com a intensidade do interesse europeu pelo choro. “É impressionante”, comenta.
O que mais o toca é o reconhecimento de um traço profundamente brasileiro. “É uma particularidade da nossa cultura popular brasileira: a capacidade de produção de sociabilidades a partir de coletivos.” Nos ateliês, encontros e rodas, isso aparece de forma concreta. “É essa possibilidade de troca, de afetos, de conhecimento, de lidar com a espontaneidade do outro, construir um ‘outro ordinário possível’, mais solidário, mais afetuoso.”
Ele relaciona essa prática a uma história de resiliência. “A música brasileira foi construída à base de muita resistência e resiliência, uma potência criativa.”
Da música à saúde mental: um trabalho que inspira também na Europa
Outra surpresa desta viagem é encontrar pessoas que conhecem sua atuação paralela, durante 18 anos, no campo da saúde mental. Ele situa essa trajetória. “A gente no Brasil tem uma trajetória muito honrosa e exitosa, que margeia o fim da ditadura, a luta pela reforma psiquiátrica e a luta antimanicomial.”
No CAPS Clarice Lispector, ligado ao Instituto Municipal Nise da Silveira, na zona norte do Rio de Janeiro, ele viveu uma...
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Duo mineiro leva o choro contemporâneo ao Festival Internacional de Paris
3/19/2026
O duo formado pelas multi-instrumentistas Noemi Guimarães e Bia Nascimento é uma das atrações da 22ª edição do Festival Internacional de Choro de Paris, que acontece de 27 a 29 de março na capital francesa. Também compositoras e arranjadoras, as duas se conheceram em Belo Horizonte, nas rodas de choro impulsionadas por coletivos de mulheres.
Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris
A afinidade virou parceria, e logo elas começaram a tocar juntas com regularidade, explorando repertórios que vão além do choro tradicional, com espaço generoso para o improviso. “Eu me mudei para BH para fazer mestrado na UFMG, e a Bia já morava lá. Nos conhecemos numa roda organizada por mulheres no choro e nos conectamos de cara”, conta Noemi.
O duo também se insere em um movimento mais amplo: a consolidação da presença feminina no choro. Embora a história do gênero tenha consagrado nomes como Chiquinha Gonzaga, muitas compositoras e instrumentistas ficaram à margem da documentação.
“Eu comecei meu doutorado pesquisando mulheres no choro. Percebi que elas sempre existiram — o problema é que não foram vistas”, explica Bia Nascimento.
Ela cita compositoras como Lina Pesci e Carolina Cardoso de Menezes, ainda pouco lembradas. “A gente está mudando isso. As mulheres vão abrindo portas umas para as outras”, comemora.
O choro como herança familiar
Noemi, parisiense de nascimento, cresceu mergulhada na tradição do gênero. Filha da pianista e compositora Maria Inês Guimarães, idealizadora e diretora artística do festival de Choro Internacional de Paris, ela frequentou oficinas, rodas e concertos desde a infância. “Cresci dentro do festival”, lembra.
A música se formou no conservatório francês, estudou piano e flauta, e mais tarde decidiu aprofundar seu contato com o choro no Brasil. Há dois anos, mudou-se para Belo Horizonte para estudar música popular na UFMG.
A França vive um momento de entusiasmo crescente pelo choro e outros ritmos brasileiros. Noemi observa que o interesse se espalha entre profissionais da música e também entre amadores apaixonados. “Muita gente descobre o choro em uma viagem ao Brasil ou numa roda aqui mesmo. E temos muitos brasileiros dando aula, o que fortalece essa cena”, descreve.
Gênero em plena renovação
Desde 2024, o choro é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, e críticos apontam que o gênero vive uma das fases mais criativas de sua história. Jovens instrumentistas expandem fronteiras, misturam linguagens, incorporam referências contemporâneas e experimentam com tecnologia — tudo sem perder o respeito pelas tradições.
“BH tem roda de choro todos os dias. Quando me mudei para lá, fiquei impressionada com a força dessa cena”, diz Bia. A prática intensa em rodas também alimenta uma das principais características do choro: o improviso. “A graça é colocar algo seu na música. Eu proponho uma variação, a Bia responde, e nasce ali uma conversa ao vivo”, explica Noemi.
A apresentação em Paris será especial por muitos motivos, especialmente para Bia, que está na França pela primeira vez. “As expectativas são as melhores. Temos um repertório definido, mas nunca sabemos o que pode acontecer na hora. Estou muito feliz”, diz.
As primeiras impressões? “Poucas, mas ótimas. A comida já me conquistou – dialoga com Minas. E o queijo me ganhou completamente”, revela.
Recém-formada no mestrado, Noemi diz que, por enquanto, quer seguir em Belo Horizonte, onde encontrou uma cena “pulsante” e cheia de oportunidades. “Mas não descarto voltar à França um dia. É a minha primeira casa.”
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‘A música brasileira tem essa coisa que todo mundo gosta’: Festival de Choro reúne mestres em Roterdã
3/17/2026
O Festival do Choro de Roterdã realiza no próximo domingo, 22 de março, a sua 13ª edição, reunindo dois nomes de destaque da música instrumental brasileira: o pianista, compositor e arranjador Cristóvão Bastos, autor de clássicos como “Todo o Sentimento”, e o violinista de sete cordas Rogério Caetano, referência no instrumento. A apresentação acrescenta um novo capítulo à relação duradoura entre o país europeu e o gênero musical nascido no Rio de Janeiro.
À frente da direção artística do festival está o cavaquista holandês Marijn van der Linden, fundador da Escola Portátil de Música (EPM) da Holanda, a primeira filial da carioca Casa do Choro fora do Brasil. Há anos, Marijn constrói pontes entre a música brasileira e a Europa.
“O choro é sempre bem recebido aqui. A música brasileira tem essa coisa que todo mundo gosta: coloca um sorriso no rosto”, diz. “E, nesses dias de guerra, o povo está precisando de um pouco de alegria e felicidade. A música brasileira traz isso”, acrescenta Marijn, com entusiasmo.
Uma escola pequena que sustenta um festival internacional
Sem patrocínios fixos e com atividades concentradas nos sábados, a EPM da Holanda cresceu de forma orgânica. Hoje reúne cerca de 70 alunos, entre brasileiros recém‑chegados e holandeses com vínculos afetivos com o país. É dessa estrutura enxuta que nasce a programação anual do festival.
“Eu vejo quem está circulando pela Europa, quem está perto, quem está em Paris, quem está em turnê. Isso viabiliza o festival”, explica Marijn.
No ano passado, um imprevisto abriu espaço para a participação de Hamilton de Holanda, ídolo do cavaquista. “Foi um sonho”, lembra. Em 2026, o festival ganha um reforço institucional importante: pela primeira vez, recebe apoio da Embaixada do Brasil na Holanda.
Um encontro pessoal com o choro
Formado originalmente em guitarra e violão jazz, Marijn viu sua trajetória mudar ao descobrir o choro. Já fascinado pela música brasileira, começou no cavaquinho com DVDs e livros, em tempos pré‑YouTube. A virada aconteceu em 2008, quando viajou ao interior de São Paulo para o Festival de Choro da Escola Portátil.
“Foi meu batizado no choro”, recorda. Lá conheceu sua futura professora, Luciana Rabello, e mergulhou no universo de Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo e na linguagem que hoje transmite a seus alunos em Roterdã.
Brasil diverso dentro e fora do palco
O festival vai além da música. Entre concertos, capoeira e gastronomia, há o desejo de apresentar aos holandeses um Brasil mais amplo do que o imaginário carnavalesco costuma permitir.
A cultura brasileira é muito para fora, muito junto. Criança e adulto misturados, tudo conectado”, observa Marijn. “O choro é raiz, mas o Brasil é muito grande. É importante mostrar outros lados.
Nesta edição, dois artistas do Ceará ampliam o mosaico: o trombonista e bandolinista Roberto de Oliveira, que vem de Lille (norte da França), e o violonista Samuel Rocha, de Fortaleza. A eles se junta a pianista mineira Maria Inês Guimarães, radicada em Paris. Na cozinha, sabores baianos dividem espaço com pães de queijo. No sábado, os interessados já podem chegar para uma visita à escola EPM e, à noite, participar de uma roda de samba com Rogério Caetano.
No domingo, a programação começa às 15h, em clima de encontro familiar. Crianças de cinco anos tocam seus primeiros choros, dividindo espaço com alunos adultos e com o mais velho da escola, de 82 anos. Essa convivência intergeracional – tão marcante no Brasil – é algo que Marijn faz questão de levar ao público holandês.
No palco principal, Cristóvão Bastos, prestes a completar 80 anos, será celebrado como a lenda que é.
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Quadrinista investiga colonização e memória em HQ na França sobre território Guarani-Kaiowá
3/16/2026
Arquiteta de formação, artista plástica e pesquisadora, Clara Chotil vem conquistando destaque nos quadrinhos com histórias que cruzam memória, história e política. Depois de Ópera Negra, ela lança na França Tekoha, uma obra inteiramente pintada em acrílico que mergulha na relação profunda entre os povos indígenas e seus territórios no Mato Grosso do Sul, no Brasil.
A quadrinista e ilustradora franco-brasileira Clara Chotil vem se afirmando como uma das vozes singulares de uma nova geração de artistas que exploram, por meio da narrativa gráfica, as intersecções entre memória, história e política. Arquiteta de formação, artista plástica e pesquisadora, ela acaba de lançar na França Tekoha, uma história em quadrinhos inteiramente pintada em acrílico que mergulha na relação entre povos indígenas e território no Mato Grosso do Sul.
Ao falar sobre o ambiente em que começou a produzir, Chotil observa que o cenário mudou nos últimos anos para as mulheres que trabalham com quadrinhos. “A minha geração de criadoras e criadores de quadrinhos é uma geração em que muitas mulheres já estão presentes. Eu cheguei inspirada por mulheres autoras e já rodeada de mulheres criadoras”.
Essa presença feminina se manifesta com clareza sobretudo nas escolas e nos espaços de formação artística, afirma a autora. “Nas escolas de ilustração e nos cursos mais dedicados aos quadrinhos, a maioria já é de mulheres”, diz. Ainda assim, a transformação do campo não ocorre de maneira uniforme. Segundo ela, persistem desequilíbrios nas instâncias de decisão do setor editorial. “Onde ainda há maioria de homens é entre os editores, nos espaços de premiação e de poder, e nos espaços de decisão, onde a chegada das mulheres leva mais tempo.”
Filha de mãe brasileira, Clara Chotil cresceu na França, uma condição que marca profundamente o ponto de vista a partir do qual constrói sua obra. “O meu olhar é um olhar bastante europeu. Eu sou brasileira por parte de mãe, mas cresci na França, fui criada aqui, nasci aqui”, explica. No início do processo criativo, ela chegou a considerar que essa dimensão biográfica poderia permanecer implícita na narrativa. “No início eu não queria deixar tão explícito o fato de eu ser francesa, porque me parecia uma complexidade que não era necessária numa história já complexa”.
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Com o avanço da pesquisa, no entanto, a artista percebeu que sua posição também fazia parte da história que estava tentando contar. “Aos poucos eu me dei conta de que era importante dizer de onde eu estava olhando, porque isso também era uma consequência do meu interesse”, afirma. Reconhecer essa perspectiva externa tornou-se, para ela, uma forma de dar transparência ao próprio processo narrativo. “Fazia parte da história o fato de eu estar olhando de fora”.
A formação em arquitetura, por sua vez, influencia diretamente a maneira como ela organiza o espaço em suas páginas. Em seus quadrinhos, a paisagem frequentemente ocupa um papel central. “Eu acho que o meu olhar é muito o olhar de uma arquiteta”, diz. Essa característica se repete em diferentes trabalhos da autora. “Seja nesse quadrinho ou no anterior, eu sempre desenho mais espaços do que personagens”.
Em Tekoha, essa escolha ganha uma dimensão particular, já que o próprio título remete a um lugar e a um modo de habitar. “No caso desse quadrinho, o título é justamente o título de um espaço”, explica. O leitor é conduzido por imagens que privilegiam panoramas amplos antes de se aproximar dos protagonistas da narrativa. “A maioria das imagens são com a ‘câmera’ mais distante, e aos poucos a gente vai chegando perto dos personagens que vão nos contando essa história”.
O impulso inicial para o projeto nasceu de uma inquietação pessoal diante da situação política brasileira no início da década. Clara Chotil começou a trabalhar no livro durante o mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Eu comecei esse...
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